
Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Benito Liao, representante de Taiwan no Brasil, afirmou acompanhar a eleição presidencial brasileira com “profundo respeito às instituições” e sem interferir nos assuntos internos. Ainda assim, apelou para que o próximo presidente se alinhe às democracias e se oponha às crescentes pressões da China sobre a ilha.
Liao disse que Taipei manterá o compromisso de ampliar a cooperação econômica, tecnológica e cultural com o governo escolhido pelos brasileiros. Segundo ele, há amplo potencial para parcerias em áreas estratégicas, como inteligência artificial, semicondutores e tecnologia agrícola, capazes de fortalecer os laços bilaterais.
Ao abordar o cenário internacional, o diplomata avaliou que a principal disputa global opõe democracia e autoritarismo. Ressaltou que Taiwan investe em sua própria defesa, mas depende do apoio de países que compartilham esses valores para preservar a estabilidade no Indo-Pacífico.
Existe um confronto, ele não ocorre entre o Oriente e o Ocidente, mas sim entre o bloco democrático e o bloco autoritário
Benito Liao, representante de Taiwan no Brasil
Desde 2023, Liao chefia o Escritório Econômico e Cultural de Taipei em Brasília, representação informal da ilha. A diplomacia brasileira e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantêm a política de reconhecimento de “uma só China”, adotada pelo Brasil desde 1974.
Confira abaixo a entrevista com Benito Liao, representante de Taiwan no Brasil.
Como o senhor, no papel de observador estrangeiro e representante de uma nação sensível aos fluxos comerciais e de capitais pelo mundo, acompanha a corrida presidencial no Brasil?
Benito Liao: Acompanho o processo eleitoral no Brasil com o mais profundo respeito por suas instituições democráticas e pela vontade soberana do povo brasileiro, reconhecendo o peso fundamental desta grande nação como um motor econômico global e um parceiro extremamente relevante.
O senhor enxerga o agravamento do confronto entre as visões de Ocidente e Oriente em torno de valores democráticos? Podemos falar em uma nova Guerra Fria?
Benito Liao: Observamos que, se existe um confronto, ele não ocorre entre o Oriente e o Ocidente, mas sim entre o bloco democrático e o bloco autoritário. O Brasil e Taiwan são países que compartilham os mesmos valores básicos universais, como a democracia e a paz. Por isso, acreditamos que a resolução de conflitos deve ocorrer de forma pacífica, em vez do uso da força.
Taiwan está inserido em duas situações de grave atenção global, como maior exportador de semicondutores em meio a uma revolução tecnológica e em razão da instabilidade geopolítica nos seus limites com a China. Como seu governo está lidando com tais pressões?
Benito Liao: A indústria de semicondutores será o núcleo para o desenvolvimento tecnológico e para um futuro de prosperidade em todo o mundo. Taiwan, com a produção dos chips de semicondutores mais avançados, desempenha um papel extremamente importante não apenas na região da Ásia-Pacífico, mas no mundo todo.
Sem dúvida, existem hoje riscos de conflitos militares naquela região. Por isso, gostaria de chamar a atenção dos países democráticos, incluindo o Brasil, para que deem mais atenção e apoio à manutenção do status quo no Estreito de Taiwan.
A estabilidade e a paz são a base da prosperidade. Pelo bem comum da comunidade internacional, Taiwan está trabalhando fortemente em sua indústria de defesa para se defender e, também, precisa do apoio de países que compartilham dos mesmos valores universais.
Quais áreas de referência de Taiwan poderiam ser objetos de parcerias estratégicas com o Brasil? A produção agrícola brasileira e as especialidades taiwanesas em tecnologia digital seriam alvos óbvios de acordos futuros?
Benito Liao: Taiwan já tem muitas empresas investindo no Brasil. Essas empresas podem servir para desenvolver a indústria de inteligência artificial no país. Neste belo país, vocês têm muitas vantagens, como um mercado de grande escala, energia renovável, água abundante, engenheiros e profissionais capacitados, entre outras. Por isso, existem muitas e excelentes possibilidades de cooperação e formação de alianças entre Taiwan e Brasil.
Além disso, Taiwan dispõe de produtos de tecnologia inteligente que podem ser aplicados para otimizar os setores agrícola e industrial do Brasil, áreas nas quais o país se destaca. Isso pode se tornar um campo promissor de cooperação entre nossas duas nações.
Autor: Gazeta do Povo








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