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Alemanha: Barriga de aluguel derruba líder de partido – 21/07/2026 – Mundo

Um político e seu marido festejam o nascimento do filho gerado por uma barriga de aluguel. O problema? Ele era o líder do grupo parlamentar que representa a democracia cristã em um país em que o método é proibido. Um veto que, como político, trabalhou para manter até quando a gestação já estava em curso.

Jens Spahn, um dos homens-chave do governo Friedrich Merz, renunciou no último fim de semana, gerando uma crise política e renovando o debate sobre reprodução na Alemanha.

“Percebi que minha felicidade pessoal —formar uma família com meu marido e me tornar pai— é incompatível com meu cargo político”, escreveu Spahn na carta em que informou sua saída aos colegas da União, o grupo parlamentar formado pela CDU de Merz e a CSU, sua equivalente estadual na Baviera.

Nas redes sociais, o primeiro-ministro classificou a decisão de “correta e inevitável”. “A credibilidade é o bem mais precioso na política.” Dias antes, o chefe de governo havia parabenizado Spahn pelo nascimento da criança. A polêmica ainda não havia se instalado.

Spahn, 46, um conservador linha-dura que tinha peso na coalizão de governo montada por Merz, no ano passado, chegou a tentar emplacar uma explicação para sua atitude. Em entrevista ao tabloide Bild, jornal mais popular do país, afirmou que viveu um conflito interno “por muito tempo, inclusive sobre a questão da barriga de aluguel”.

Não deu certo. Enquanto colegas de partido pediam sua renúncia, oposição e imprensa lembravam que a CDU, em conferência partidária, em fevereiro, votou contra a revisão de legislação alemã para permitir a barriga de aluguel altruísta, como ocorre no Brasil. E que Spahn, como ministro da Saúde, em 2020, já havia se recusado a discutir sua flexibilização.

Até uma frase do parlamentar foi desencavada de uma entrevista de 2015. “Como homem gay e cristão, pessoalmente, tenho muita dificuldade em aceitar a ideia de uma barriga de aluguel. Aceitar que não serei pai de forma natural exige uma grande dose de humildade. Não sei se sou capaz disso.”

Uma lei de 1990 criminaliza a prática na Alemanha, mas não impede que casais busquem o recurso em outros países. Como muitos alemães, Spahn e seu marido foram aos EUA para gerar o primeiro filho. Críticos notaram que o conservador seguiu os passos do amigo Peter Thiel, o bilionário fundador do PayPal e da Palantir, que organiza palestras sobre anticristo e tem duas filhas geradas por barriga de aluguel.

“Qualquer um que defenda regras no âmbito político deveria ser capaz de explicar claramente por que essas regras aparentemente não se aplicam a ele pessoalmente”, afirmou Janosch Dahmen, porta-voz dos Verdes no Bundestag, o Parlamento alemão.

Estrago feito, Merz afirmou em entrevista à TV pública que aproveitaria o episódio para reorganizar as forças dentro da CDU. Além disso, não descartou promover mudanças em seu gabinete, que divide com os sociais-democratas do SPD.

A rápida disposição do primeiro-ministro também se explica pelo momento eleitoral na Alemanha. Em setembro, a AfD, partido de ultradireita, com alas regionais consideradas extremistas pelos serviços de segurança do país, está cotada para vencer as eleições em dois estados.

Até aqui, as pesquisas apontam a legenda perto de uma bancada expressiva em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e de uma inédita formação de governo na Saxônia-Anhalt. Tal situação geraria muita pressão política sobre Merz no âmbito federal, que já esgrime contra um dos piores índices de popularidade da história do país.

Pior, a falta de coerência, característica da AfD e de boa parte dos populistas europeus, não é uma opção para Merz, como o episódio com seu ex-líder parlamentar mostra.

Enquanto o primeiro-ministro e seus partidos discutem quem substituirá Spahn, a Alemanha vê renovado o debate que trava há décadas sobre barriga de aluguel, assunto sensível que, no país, percorre da bioética à fé, passando pela sexualidade.

Frauke Brosius-Gersdorf, jurista que no ano passado teve a indicação à mais alta corte do país torpedeada pela CDU, por ser “libertária” e supostamente a favor do aborto, disse em entrevista ao jornal Die Zeit que a proibição do procedimento não é compatível com a Lei Fundamental, a Constituição, pautada pela autodeterminação.

“Considero lamentável que o sr. Spahn não tenha retomado o debate sobre a barriga de aluguel na Alemanha com base em sua própria experiência pessoal. Com isso, ele poderia oferecer a muitas pessoas as oportunidades que teve no exterior.”

Autor: Folha

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