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Saiba por que a Globo não comprou pacote completo da Copa – 21/07/2026 – Esporte

A semifinal entre Espanha e França, que levou a seleção de Rodri para a decisão da Copa do Mundo, foi transmitida no Brasil apenas pela CazéTV. Também aconteceu assim com o jogo com desempenho surpreendente de Vozinha, carismático goleiro de Cabo Verde, diante dos espanhois ainda na primeira fase.

Algumas das partidas mais comentadas deste Mundial, que chegou ao fim neste domingo (19), e também algumas das histórias mais curiosas da competição foram transmitidas ao vivo apenas pelo canal da LiveMode. E só depois os concorrentes, como a TV Globo, repercutiram.

Pela primeira vez desde 1970, quando passou a exibir os jogos da Copa, a Globo não teve os direitos de todas as partidas do Mundial. Mostrou 55 jogos. O pacote completo, com 104 jogos, ficou com a Cazé. O SBT apresentou 32 disputas.

O desempenho da emissora carioca está longe de ser um fiasco. Até as semifinais, diz o departamento de comunicação da empresa em nota enviada à reportagem, foram “140,2 milhões de pessoas alcançadas pela Globo (TV Globo, SporTV e GeTV) na Copa do Mundo, sendo 34,3 milhões de pessoas impactadas exclusivamente pela Globo”, considerando dados do Ibope.

São números eloquentes, assim como os obtidos pela Cazé. Essa Copa marcou uma mudança definitiva no consumo de mídia esportiva no Brasil, segundo Christian Mutzig, um dos sócios da LiveMode.

“Pela primeira vez, o digital foi o motor do crescimento de audiência —os jogos da seleção foram mais assistidos do que em 2022, e esse ganho veio inteiramente do público digital. Ao longo do torneio, a CazéTV reescreveu o ranking de maiores transmissões ao vivo da história do YouTube: são 29 das 30 maiores audiências do mundo, com o recorde de 23,9 milhões de dispositivos conectados ao mesmo tempo, e 118,7 milhões de contas únicas alcançadas na plataforma”, afirma Mutzig.

Devido à presença mais constante ao longo de todo o Mundial, o canal fundado por Casimiro Miguel tende a dividir com a Globo o papel de protagonista no imaginário coletivo brasileiro ligado à Copa de 2026, uma situação impensável há uma ou duas décadas.

Relatos obtidos pela reportagem vindos do círculo próximo ao comando da Globo citam “susto” e “revés” para descrever a força demonstrada pela Cazé nas últimas semanas. Houve ainda uma sensação de frustração na área de jornalismo, que funciona separadamente do departamento de esporte.

Afinal, quando a Globo decidiu não comprar o pacote completo de jogos? E por que isso aconteceu?

É preciso voltar a 2020 para entender os primeiros sinais evidentes de distanciamento da emissora em relação à Fifa, dona dos direitos de transmissão. Naquele ano, o Grupo Globo acionou a Justiça para não pagar de maneira imediata o valor de US$ 90 milhões (quase R$ 600 milhões, no câmbio atual) previsto no contrato para o período entre 2015 e 2022.

O objetivo da emissora era renegociar os valores do contrato, que contemplava a Copa do Mundo de 2022, no Qatar, em razão da pandemia, que afetava os rendimentos da empresa.

O embate entre Globo e Fifa se estendeu por alguns meses até que os dois lados entraram em um acordo, e o caso foi arquivado em 2021. Neste ano, um novo revés: a emissora perdeu a exclusividade nos direitos de transmissão pela internet do torneio no Qatar, e a Fifa começou a negociar com a LiveMode.

Nesse processo de afastamento, 2022 é o momento-chave, segundo as fontes ouvidas pela Folha. Deu-se neste ano a confirmação de que a Globo não obteria os direitos digitais para o Mundial seguinte, justamente o que acabamos de acompanhar.

Também em 2022, a emissora tomou a decisão de não comprar a totalidade dos jogos do Mundial sediado nos EUA, no México e no Canadá.

E por que a emissora não comprou o pacote completo?

Existem pelo menos dois aspectos que devem ser levados em conta, ambos de fundo financeiro.

O primeiro é o efeito da pandemia de coronavírus sobre as finanças do Grupo Globo. “Como várias outras empresas, a Globo precisou fazer muitas demissões em consequência da pandemia. Se não fosse o sucesso de publicidade do Big Brother Brasil [de 2020], teria sido ainda pior”, afirma o jornalista Ernesto Rodrigues, autor de trilogia sobre os 60 anos da TV Globo.

Havia àquela altura uma meta de cortar R$ 1 bilhão por ano, segundo Rodrigues.

O segundo ponto, não menos relevante, é a explosão dos custos de transmissão das grandes competições de futebol, especialmente da Copa do Mundo, muito em virtude do gigantismo alcançado pelo evento.

O acordo para exibir o Mundial sediado pela França, em 1998, custou US$ 19,4 milhões (em valores atuais), divididos por cinco canais brasileiros. Concluída a competição, a Globo acertou a exclusividade para apresentar os Mundiais de 2002 e 2006 por US$ 413 milhões (corrigidos). Daí em diante, esses custos continuaram crescendo.

A venda dos direitos de transmissão representa a maior fatia das receitas obtidas pela Fifa. Na Copa de 2022, alcançou US$ 3,4 bilhões, segundo o Sport Insider, veículo especializado em negócios do esporte; no Mundial deste ano, saltou para US$ 4,3 bilhões.

Contribui ainda para essa alta de valores o acirramento da concorrência, com a entrada em campo das gigantes digitais. É natural que o preço dos direitos de transmissão suba quando pesos pesados cobiçam esse mercado da mídia esportiva.

Vale lembrar que a Fifa deu o status de “plataforma preferencial” nesta Copa ao YouTube, que pertence ao Google. E o YouTube fez parceria no Brasil com a LiveMode, agência dona da Cazé.

Existe ainda um terceiro aspecto lembrado nos bastidores –nesse caso, porém, há divergências. Uma corrente ligada à cúpula da emissora diz que áreas tradicionalmente associadas à TV aberta, como esporte e dramaturgia, foram sacrificadas a partir de 2017 para que a empresa pudesse destinar mais investimentos ao serviço de streaming Globoplay.

Outra ala, porém, afirma que são ordens de grandeza muito diferentes. Para um integrante desse segundo grupo, todo o custo de conteúdo do Globoplay somado é menor do que a Globo paga pela série A do Campeonato Brasileiro, ou seja, não faz sentido comparar os dois setores.

‘Ambiente de forte concorrência’

Segundo a nota da Comunicação da Globo, a emissora “revisita suas dinâmicas, processos e estratégias frequentemente e, durante a pandemia, quando foram renegociados alguns direitos incluindo os de transmissão da Copa do Mundo, o principal objetivo foi garantir o equilíbrio entre investimento e geração de valor”.

Nesse contexto, continua, “para a edição 2026, a Globo priorizou a aquisição do pacote composto por todos os confrontos da seleção brasileira, a final e mais a metade das outras partidas do campeonato”.

Ainda de acordo com a nota, “é preciso considerar que a Globo sempre conviveu em um ambiente de forte concorrência. Primeiro na TV aberta, depois na TV por assinatura e agora também no digital. Inclusive em Copas passadas, quando dividiu a exibição do campeonato com outros players. O grande desafio hoje é combinar duas realidades: a escalada dos custos de direitos e a receita que a exploração deles gera”.

Para a Comunicação da Globo, “a discussão é bem mais ampla do que apenas ter o direito de exibir as partidas porque o investimento não termina na compra dos direitos. A Globo trabalha para entregar a melhor experiência para as pessoas, investindo em qualidade técnica, equipes e talentos, criatividade, tecnologia, inovação e distribuição”.

De acordo com Mutzig, da LiveMode, “o torneio revelou uma mudança de comportamento que foi se consolidando jogo a jogo. Chegamos [Cazé TV] nesta Copa com 6,9 milhões de dispositivos — já o maior pico da história para um jogo de futebol no YouTube. Na estreia da seleção contra Marrocos, o pico quase dobrou e foi de 12,6 milhões. Três jogos depois, mais de 20 milhões de dispositivos estavam conectados simultaneamente”.

Quem decidiu?

De quem foi a decisão de não comprar o pacote completo dos jogos desta Copa? Também aqui há visões divergentes.

Para uma ala, o grande responsável foi Jorge Nóbrega, presidente-executivo do Grupo Globo de 2017 a 2022. “Ele começou a pegar pesado contra a TV aberta. É dessa época a decisão de não gastar muito dinheiro com esporte”, diz Ernesto Rodrigues.

Em email à reportagem, Nóbrega diz apenas: “Tenho por princípio não falar de questões internas da Globo desde que saí de lá”.

Outra corrente, porém, defende que uma iniciativa de tamanha relevância para a empresa envolveu debates e não poderia ser conduzida por um homem só. Foi, dizem esses interlocutores, uma decisão colegiada, com participação dos acionistas do Grupo Globo, além de Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura da Globo, e do próprio Nóbrega.

Seja como for, a TV Globo planeja recuperar os direitos de todos os jogos da Copa de 2030.

“Estamos de olho no novo ciclo e na Copa feminina, que acontece aqui no Brasil no próximo ano. Queremos mostrar que só nós entregamos uma Copa em massa para a Fifa”, afirmou Renato Ribeiro, diretor de esportes da Globo, à coluna Outro Canal no início de junho.

Colaborou Paulo Passos

Autor: Folha

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