Quando vê um adolescente recebendo a vacina contra o HPV, Luisa Lina Villa, 75, tem a sensação de ter completado um ciclo raro na ciência. “Você começa pesquisando um bichinho que nem sabe direito como funciona e, décadas depois, vê a redução do câncer. É a felicidade completa”, diz.
A frase resume uma carreira de quase meio século dedicada a desvendar um vírus que, quando ela iniciou seus estudos, no começo dos anos 1980, ainda despertava mais perguntas do que respostas.
Hoje, graças a pesquisas das quais participou, o HPV é reconhecido como a principal causa do câncer do colo do útero e de tumores localizados na parte de trás da garganta, incluindo a base da língua e as amígdalas (orofaringe), de ânus e de pênis.
Desde 2014 existe uma vacina capaz de prevenir a infecção pelos tipos mais perigosos do vírus e países que alcançaram altas coberturas vacinais já registram queda das lesões precursoras, dos casos de câncer e, mais recentemente, também das mortes.
Por toda a sua contribuição, Luisa Villa é a vencedora do Prêmio Octavio Frias de Oliveira na categoria Personalidade de Destaque em Oncologia. A cerimônia de entrega ocorre nesta quarta (12).
Entre as dezenas de homenagens acumuladas ao longo da carreira, ela afirma que esta ocupa um lugar especial. “Tem um enorme significado. O Icesp é uma instituição que me abraçou nos últimos anos”, diz.
Nascida em Como, na Itália, e trazida ao Brasil pela família aos cinco anos, Villa conta que a vocação científica surgiu muito antes da universidade. Era uma menina fascinada pela natureza, que passava o tempo tentando entender “como funcionavam as coisas”.
Queria saber como os animais se reproduziam, por que as plantas cresciam, como funcionava a vida. A curiosidade a levou primeiro à biologia, depois à genética de microrganismos e, finalmente, aos vírus.
Formada em ciências biológicas e doutora pela USP (Universidade de São Paulo), construiu uma carreira internacional, com passagens pelo Imperial Cancer Research Fund, em Londres, pelo National Cancer Institute, nos Estados Unidos, e pela Universidade Nacional de Singapura, no sudeste asiático.
Em 1983, ingressou no Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em São Paulo, onde criou um dos principais grupos de virologia da América Latina. Mais tarde tornou-se diretora científica da instituição. Desde 2011 integra a Faculdade de Medicina da USP e chefia atualmente o laboratório de inovação em câncer do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Icesp.
Seu nome está associado a alguns dos estudos mais influentes sobre HPV no mundo. Ao lado do epidemiologista canadense Eduardo Franco, coordenou por mais de três décadas o estudo de coorte Ludwig-McGill, que acompanhou cerca de 2.500 mulheres para compreender como diferentes tipos do vírus evoluem até o câncer do colo do útero.
O trabalho ajudou a estabelecer a história natural da infecção e forneceu evidências fundamentais para as estratégias de prevenção adotadas internacionalmente. Neste ano, os dois passaram a liderança da pesquisa para Laura Sichero, do Icesp, e Helen Trottier, da Universidade McGill, ambas formadas em seus grupos de pesquisa.
“Uma das nossas missões é transmitir e abrir as portas para que outros levem o bastão adiante”, afirma. Segundo ela, ver ex-alunas assumindo um estudo iniciado há mais de 30 anos é uma das maiores recompensas da carreira.
Villa também foi autora principal de um dos ensaios clínicos decisivos para a aprovação da vacina quadrivalente contra o HPV, publicado em 2005, na The Lancet Oncology.
Ela descreve como “uma euforia absoluta” o momento em que os resultados confirmaram que a hipótese construída durante anos estava correta. “Sabíamos que o princípio fazia sentido, mas só um ensaio clínico podia demonstrar que a vacina era segura e realmente prevenia a infecção.”
A pesquisadora faz questão de lembrar que aquela conquista foi resultado de um esforço coletivo. “Contou com a colaboração de muitos pesquisadores e de muitas brasileiras que participaram desses ensaios clínicos”, afirma.
Hoje, Villa acompanha com entusiasmo os primeiros países que já observam a queda do câncer do colo do útero graças à vacinação. Ela cita os países nórdicos, a Escócia, a Itália e, mais recentemente, a Inglaterra, onde um estudo mostrou que, entre mulheres vacinadas antes dos 20 anos, nenhuma morreu pela doença —quando, pela série histórica, eram esperadas ao menos 29 mortes.
“Eu costumo dizer que não vou estar por aqui, mas, de onde estiver, vou ver isso acontecer. O câncer do colo do útero vai ser eliminado”, afirma.
Eu costumo dizer que não vou estar por aqui, mas, de onde estiver, vou ver isso acontecer. O câncer do colo do útero vai ser eliminado
No Brasil, porém, o cenário ainda está distante desse objetivo. Cerca de 17 mil mulheres recebem o diagnóstico da doença todos os anos e pelo menos metade morre. Para Villa, trata-se do câncer que mais evidencia as desigualdades do país. “É um tumor que pode ser prevenido. Por isso dá tanta tristeza quando vemos uma mulher morrer.”
Na sua avaliação, o maior obstáculo deixou de ser científico. “A ciência respondeu à pergunta principal. O desafio agora é comunicar à população que uma vacina pode prevenir um câncer.”
Ela acredita que essa dificuldade ajuda a explicar tanto as baixas coberturas vacinais quanto a resistência inicial à imunização dos meninos. Durante anos, lembra, o HPV foi associado apenas ao câncer do colo do útero, criando a falsa impressão de que a infecção seria um problema exclusivamente feminino.
Hoje se sabe que o vírus também causa tumores de ânus, pênis e orofaringe nos homens e que vaciná-los amplia a proteção coletiva e acelera a redução da circulação viral.
Por isso, ela defende fortemente a vacinação nas escolas. Para Villa, esperar que adolescentes procurem espontaneamente uma unidade de saúde é uma estratégia limitada. “O adolescente se sente invencível”, resume.
A retomada das campanhas escolares e a adoção da dose única da vacina contra o HPV, afirma, permitiram recuperar parte da cobertura. “Quando olhamos quem recebeu pelo menos uma dose, já chegamos perto de 85%. Falta um pouco, mas nós vamos chegar lá.”
Autor: Folha








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