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Vírus do esgoto pode ser usado contra superbactéria – 10/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro e da USP (Universidade de São Paulo), em colaboração com a Manchester Metropolitan University, do Reino Unido, identificaram e isolaram um vírus capaz de “matar” duas cepas da Klebsiella pneumoniae. Nove cepas foram testadas.

O vírus é um bacteriófago (que infecta apenas bactérias) chamado KP47 e foi isolado em amostras de esgoto no Reino Unido.

A superbactéria pode causar pneumonia, infecções urinárias e sanguíneas, problemas em feridas cirúrgicas e sepse. Multirresistente, ela produz uma enzima chamada KPC (sigla em inglês para Klebsiella pneumoniae carbapenemase), que destrói antibióticos potentes.

Essa característica torna o microrganismo um dos principais agentes de infecções hospitalares de difícil tratamento. Pacientes de UTIs são especialmente suscetíveis por estarem debilitados, submetidos a procedimentos invasivos e imersos em ambientes com alto uso de antibióticos.

O combate à resistência bacteriana a antibióticos é um desafio à saúde pública no Brasil e no mundo.

Para isolar o KP47, os cientistas usaram uma bactéria específica chamada Klebsiella quasipneumoniae subsp. similipneumoniae (cepa KH1), um patógeno com relevância clínica.

“Esse é um processo de isolamento em que a gente coleta a água e a processa dentro do laboratório, passando por uma filtragem. Depois, a colocamos em contato com a bactéria que queremos combater — usando-a como hospedeira para propagar o fago que venha a aparecer. Se ele for compatível e reconhecer aquela bactéria, vai usá-la como fábrica para propagar novos vírus e matá-la por lise [fazer a célula da bactéria se romper e morrer]”, afirma uma das autoras do trabalho, Layla Farage Martins, PhD em bioquímica e biologia molecular, pesquisadora de biologia de fagos do Instituto de Química da USP.

O estudo revelou que o vírus KP47 elimina bactérias de forma rápida e inteligente. Primeiro, ele invade a célula, se multiplica e a destrói em poucos minutos para liberar novos vírus. Além disso, ele se fixa a 90% das bactérias em apenas seis minutos.

O KP47 tem genes que produzem enzimas capazes de derreter a capa protetora de açúcar da bactéria, tirando o disfarce que ela usa para se esconder do nosso sistema de defesa.

“Os bacteriófagos são abundantes. Onde tem bactéria, tem bacteriófago. Não sabemos qual que tem, mas a chance de achar —principalmente em esgoto—, é muito alta. São os locais ambientais com mais de 90% de chance de encontrar um fago contra uma bactéria que a gente tem interesse em eliminar ou usar como hospedeira e como uma ferramenta, por exemplo, biotecnológica“, explica Layla.

A presença de vírus caçadores de bactérias em redes de esgoto não é exclusividade do Reino Unido. O Brasil possui um vasto ecossistema desses microrganismos, mapeado há mais de uma década pela ciência nacional.

“Nosso grupo realiza esse trabalho há mais de dez anos e já publicou diversos estudos com bacteriófagos nativos voltados para combater bactérias de interesse clínico”, explica.

Os pesquisadores trabalham em parceria com a infectologista Silvia Costa, do Instituto de Medicina Tropical da USP, que fornece cepas bacterianas de alta resistência isoladas diretamente de pacientes do Hospital das Clínicas. A partir dessas amostras, os cientistas buscam fagos no esgoto e no meio ambiente brasileiro capazes de neutralizá-las.

O KP47 tem limitações territoriais devido à sua alta especificidade. Embora tenha se mostrado uma arma promissora na Europa, os testes preliminares mostraram que ele não foi capaz de combater as superbactérias coletadas nos hospitais brasileiros.

“Nas linhagens que testamos até o momento, esse fago específico não reconheceu as bactérias brasileiras como hospedeiras”, diz a cientista.

Agora, os cientistas pretendem afunilar a caracterização deste fago e fazer testes in vivo para saber o quão promissor ele é e também testá-lo em uma rede maior de bactérias. Layla Farage Martins argumentou que se trata de uma ferramenta biotecnológica promissora como alternativa ao antibiótico, principalmente para bactérias resistentes e intratáveis.

Embora o uso de vírus contra bactérias seja um conceito antigo na ciência, principalmente no leste europeu — e já ter sido produzido no Brasil década de 1920 —, o avanço dessa tecnologia foi interrompido no país por decisões políticas do passado. Segundo a pesquisadora, os laboratórios e hospitais brasileiros ainda não contam com uma estrutura pronta e integrada para essa finalidade.

O grupo tenta construir uma parceria com o Hospital das Clínicas.

“Existem duas grandes vertentes de trabalho. Podemos isolar e clonar as enzimas dos fagos para testar seu desempenho em laboratório até que virem um produto, ou podemos utilizar a partícula viral completa. O vírus inteiro é comprovadamente seguro, algo já aceito na Europa e nos Estados Unidos, mas ainda precisamos avaliar sua eficácia real em pacientes antes de avançar nos testes clínicos”, detalha a pesquisadora.

O Comitê de Ética do Hospital das Clínicas já autorizou o chamado uso compassivo e exploratório de bacteriófagos para pacientes que já esgotaram todas as alternativas tradicionais de tratamento com antibióticos.

“A estrutura está começando a sair do papel agora. Recentemente, um médico infectologista da equipe da professora Silvia Costa viajou para centros de referência na Bélgica e em Portugal para acompanhar a aplicação clínica da fagoterapia. Ele trouxe os protocolos internacionais e estamos nos organizando para iniciar os tratamentos nos pacientes elegíveis”, finaliza a cientista

A pesquisa foi publicada na revista científica BMC Microbiology.

Autor: Folha

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