Crítica | RJ
Don Camillo
Av. Atlântica, 3.056, Copacabana, Rio de Janeiro. @doncamillo.oficial
Três estrelas (bom)
Quando Gero Fasano ainda procurava um ponto para instalar o Gero no Rio de Janeiro no início dos anos 2000, o amigo Chico Buarque desaconselhou-o de buscar um lugar à beira-mar. “Cariocas não gostam de comer em frente à praia”, lhe disse o compositor.
Sabe-se lá o quanto a dica foi levada em consideração, mas o fato é que a primeira versão do restaurante funcionou a quatro quarteirões da orla. Chico Buarque teria razão? Minha experiência como carioca diz que não. Nós gostamos de comer em frente à praia. E também sabemos reconhecer armadilhas, apesar de cair em algumas delas quando buscamos novidades.

Casquinha de siri do restaurante Don Camillo, no Rio de Janeiro
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Reprodução Instragam @doncamillo.oficial
O Don Camillo, na avenida Atlântica, em Copacabana, não é uma coisa nem outra. Está longe de ser novidade (completou 30 anos), tampouco armadilha. É uma casa italiana respeitável, com repertório bem executado de receitas mediterrâneas e algumas poucas adaptações, como a casquinha de siri (R$ 38) à brasileira. Leva azeite de dendê, bastante siri e merece ser enaltecida.
O restaurante é classudo, sem ser sofisticado demais. A casa tem guardanapos de pano, garçons em uniformes tradicionais, vasinho com flores frescas à mesa… Agradável é um bom adjetivo para classificá-la. Na minha visita mais recente os pratos do menu-executivo (R$ 68) me pareceram muito atraentes e com ótimo custo-benefício.
Uma pizza branca feita na hora, crocante e quentinha, deu início à refeição, abrindo os caminhos para o arroz de polvo com camarões e açafrão. Os tentáculos não eram dos maiores, mas o ponto estava ideal e o arroz muito bem temperado, sem nenhum excesso. O mesmo vale para as lulas à dorê com arroz à grega. Apesar de este tipo de arroz estar longe de ser uma unanimidade, o do Don Camillo é acima da média.
Passas brancas não o adoçam demais, e a presença de mais pimentão amarelo do que o usual deixa o sabor do prato mais delicado. As lulas estavam iguaizinhas às originais italianas: em pequenos aros, empanadas e fritas à perfeição.
Com os dois bons pratos, apaguei da memória uma decepção que tive por lá recentemente, quando provei os mexilhões —que também estavam disponíveis no menu-executivo. Eles eram enormes, visualmente impactantes. Mas justamente por serem tão grandes estavam fibrosos e borrachudos. Incomíveis.
Fiquei surpresa porque o ponto forte da casa são os frutos do mar, as massas, sempre ortodoxamente al dente, e os peixes assados. O robalo ao forno com batatas e alcaparras (R$ 144) e os lagostins grelhados com linguine na manteiga (R$ 189) foram boas pedidas em outras visitas, mas desta vez investi no menu-executivo, e não me arrependi das lulas, polvos e camarões degustados a preços tão camaradas.
Uma sobremesa (brownie com sorvete) ainda estava incluída na refeição, mas deixei passar quando vi que constava no menu o meu queridão: creme de papaia com cassis (R$ 39). Não hesitei. E ele estava ótimo. O licor poderia ser melhor (era o mediano Stock), mas não comprometeu o resultado.
Por ser na praia (e, reafirmo: nós, cariocas, gostamos disso), o Don Camillo me parece ser mais agradável no almoço. Não só pela vista, mas também pela possibilidade de se deparar com boas opções a valores mais em conta. E à noite há uma peculiaridade que divide opiniões: música ao vivo, com artistas cantando clássicos do cancioneiro italiano, como “Volare”. Fica difícil para quem quer conversar, mas muita gente gosta.
Autor: Folha








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