São Paulo
Em tempos de storytelling e experiências que viralizam nas redes, ir ao Tari, que inaugurou em meados de junho no mesmo imóvel ocupado pelo Clos Wine Bar, na Vila Madalena, faz refletir sobre o que nos agrada em um restaurante.
Na mesma frequência que o ambiente, que é receptivo mas discreto, as receitas são delicadas e as referências aparecem de maneira sutil, sem levantar a bandeira de uma cozinha específica.

Tiradito com peixe curado, leite de tigre de banana elaborado com masato, bebida fermentada amazônica, do Tari
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Ana Weber/Divulgação Estúdio Mascavo
Ainda assim, é possível identificar eixos que se destacam na comida elaborada pelo chef Sergio Suslick: há boa presença de pescados, referências latino-americanas são perceptíveis (Suslick morou no Peru) e alguns preparos brasileiros também, como indica o pão de alho na brasa (R$ 19).
As entradas são generosas e não seria um crime gastronômico decidir apostar todas as fichas da noite nelas. É reconfortante descobrir, em um restaurante, que a criatividade já está em jogo antes que se chegue aos pratos principais. Inspira o cliente a ousar mais porque o cuidado parece estar presente em todas as etapas da refeição.
O mexilhão (R$ 79), por exemplo, fica na fronteira fictícia entre moules et frites e moqueca. Nela, os moluscos são servidos com caldo da receita baiana e vêm com uma farofinha de flocão de milho com toques de maracujá.
Ainda na parte inicial, o x-coração (R$ 59) consegue atender expectativas de quem gosta desse ingrediente e recompensar a decisão de pedi-lo em um restaurante. É um coração de pato na brasa (ligeiramente mal passado) com pão brioche, acelga fermentada, queijo meia-cura e maionese de avocado.
Se essa versão te empolgar, considere o BLT siri (R$ 59) antes de ir para os principais. É a sigla em inglês para um sanduíche tão simples que ganhou o nome de seus ingredientes: bacon, alface (lettuce) e tomate. Na casa, leva carne de siri refogada com alho-poró, pão brioche, molho tártaro de maçã-verde, bacon, alface e tomate.
Na seleção principal do cardápio, os pescados mantêm sua presença: há polvo R$ 123 (cozido em baixa temperatura com nhoque de batata, molho romesco e chorizo) e peixe do dia (R$ 117) com velouté de abóbora e vinagrete de feijão-manteiguinha.
Ainda que a oferta de peixes e frutos do mar bem tratados seja uma conquista recente de São Paulo, um pequeno ato de rebeldia é válido: fora da frente marítima, o matambre suíno (R$ 99) vale o desvio. A carne de porco é grelhada na brasa, servida com jus de suã (espinha dorsal) e laranja, com polenta e farofa de azedinha.
A sobremesa de creme de queijo mascarpone e banana (R$ 45) com toque de cachaça, crocante de quinoa com chocolate e granita de frutas vermelhas pode ser uma síntese da experiência.
Ela, assim como outros pratos e drinques (em especial o brunch martíni, que leva cordial de banana), é feita de processos longos e técnicas familiares só para quem trabalha com gastronomia (e aficionados). Nessa equação, o que importa mesmo não são descrições complicadas que cairiam bem em fotos instagramáveis. Mas os pequenos detalhes que agradaram e você consegue lembrar no dia seguinte.
Tari
R. Girassol, 310, Vila Madalena, região oeste. @tarirestaurante
Autor: Folha








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