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IA: Brasil ficará em 1500 se perder corrida, diz ex-Google – 14/07/2026 – Tec

O brasileiro Mat Velloso, 49, que já passou por cargos estratégicos de inteligência artificial em Microsoft, Google e Meta, diz que o Brasil está perdido na corrida pela nova economia que deve surgir.

“Faltam propostas concretas. Sabe qual é o perigo? Que nos próximos cinco anos vai haver países que vão acelerar cem anos. Se o Brasil não acelera junto, a gente volta para 1500”, afirmou Velloso em entrevista à Folha durante evento em Sunnyvale, cidade onde fica uma das sedes do Google na Califórnia.

No ano passado, o executivo deixou uma vice-presidência no Google, onde comandava o desenvolvimento de produtos de IA, para ir ao superlaboratório de IA que Mark Zuckerberg montou com uma série de propostas bilionárias. No início deste ano, ele abriu mão de um contrato milionário pelo plano de orientar negócios brasileiros no uso de IA em troca de uma participação na empresa.

Para o brasileiro, o país deveria investir em geração de eletricidade para atrair investimentos. “Assim, viriam processamento de dados, treinamento de pessoal e dados, que são o novo petróleo para a criação de modelos como o ChatGPT.”

A China, diz ele, está à frente de todos por ter um plano de décadas.

Por que o sr. decidiu deixar a Meta?

Foi uma decisão difícil, porque eu tive que abrir mão de muito dinheiro. Eu conversei com a minha esposa e pedi permissão para tomar a decisão mais louca que já tomei na vida. A Meta me tratou muito bem, com muito respeito. Mas eu senti que não era o meu lugar. É um momento onde eu preciso trazer mais valor para a sociedade, principalmente para o Brasil. Tem muita empresa pedindo ajuda, tem muita empresa sentindo que o Brasil não vai ter outra chance como essa. E eu senti que não era certo eu perder meu tempo no lugar errado.

As empresas do Brasil têm procurado o sr.?

Eu achei que eu ia ter tempo livre e eu nunca tive tanta reunião na minha vida. Há de startups a grandes empresas —bancos, companhias na área de educação, segurança, entre outras. Eu ofereço um pouco do meu tempo, as empresas oferecem um pedaço em ações, porque eu também acredito nesses negócios.

A IA tem o potencial de mudar a economia de cabo a rabo como se discute aqui no Vale do Silício?

Sim. E eu não senti que os políticos brasileiros estão qualificados para esse debate. Faltam propostas concretas. Sabe qual é o perigo? Que nos próximos cinco anos vai haver países que vão acelerar cem anos. Se o Brasil não acelera junto, a gente volta pra 1500.

O Brasil discute hoje um incentivo para data centers. Isso funcionaria?

Não acho errado, mas daria errado sem capacidade energética e planejamento. Quando se vê a capacidade de geração de eletricidade chinesa, o gráfico é de assustar.

Uma empresa que tem data centers no Brasil que me procurou disse que está quase desistindo de trazer investimentos em IA para o país. Isso porque é muito caro e não há capacidade energética. Assim, os provedores nacionais não conseguem competir em custo com os grandes provedores de nuvem internacionais. É mais sério do que um simples incentivo fiscal.

É possível conseguir acordos de transferência tecnológica das big techs interessadas em instalar data centers no Brasil?

Tendo energia, o resto vem. O país dá energia barata e pede computadores, qualificação de pessoal e dados. Os dados precisam estar no Brasil. Os datasets são o novo petróleo, são extremamente valiosos para os criadores de modelos de IA.

A infraestrutura é o ponto essencial?

O que a China está fazendo? Ela está produzindo capacidade energética como se não houvesse amanhã. Porque se quem tem energia elétrica, tem inteligência artificial. Os países vão trocar energia elétrica por inteligência. Se o Brasil tiver uma capacidade energética enorme, ele tem um poder enorme de negociação para falar: a gente precisa de GPU, a gente precisa de contratos, a gente precisa dos últimos modelos. Se não começa por aí, o resto é ficar desejando coisas que não vão acontecer.

Os países que não tiverem computadores avançados em seus territórios ficarão para trás?

E mesmo que tenha esses computadores, vamos supor que o Brasil compre um monte. Primeiro, essas máquinas ficam obsoletas rapidamente. Segundo, existe energia para rodar esses chips? Os chips vêm depois da energia. Quem tem energia consegue negociar e falar: ‘Google vamos fazer um acordo, vamos criar um data center e gerar emprego.’

O sr. ouviu alguma conversa nesse sentido?

Eu não vejo esse plano. Eu conversei com políticos. Eles conversam sobre planos de ensinar IA nas escolas. Isso é um investimento que daqui a 20 anos se paga. E essas pessoas que aprenderam IA, o que elas vão fazer? Elas vão para o exterior, porque é onde vai ter emprego. Para mim, soberania é combater a desinformação, ter uma democracia que funciona e ter capacidade e infraestrutura para atrair os data centers, que vão atrair os dados, que vão atrair os empregos e oportunidades de negócio. É preciso ter essa fundação que não está sendo construída.

Qual é o bom exemplo de construção dessa soberania hoje?

A China está fazendo isso, a Ásia em geral. A Coreia do Sul, Singapura, todos eles têm uma concentração de doutores per capita que é uma coisa maluca. Tem um investimento, eles estão atraindo os pesquisadores. Mas tudo começa pela infraestrutura. A China tem mil defeitos, mas eu acho que o Brasil está politizando, tudo vira uma politização, tudo vira esquerda versus direita e a gente não percebe que não vai pra frente. A China tem um plano de décadas, sabe como é que ela vai chegar lá e não está perdendo tempo.

Em que áreas vale investir em inteligência artificial?

O setor jurídico, por exemplo, carece desesperadamente de automatizar, acelerar processo. Por isso, existem startups dando super certo nessa área. Existem startups dando super certo no setor financeiro e em segurança. Há tanta oportunidade de criar valor sem gerar desemprego, porque esses negócios resolvem problemas que não tem ser humano o suficiente para resolver. Os melhores investimentos são esses, os que não substituem gente.

O que a IA não substitui hoje?

Isso está mudando todo dia, a cada nova descoberta das empresas de IA. Essa é a grande pergunta que está na cabeça de todo mundo. Agora que eu saí da Meta, muita gente me procurou com essa pergunta. Tem um movimento muito legal no Brasil agora de como é que a gente prepara esse país, essas empresas para esse futuro.

Todos eles têm essa pergunta: como fica minha empresa nesse mundo onde todo dia sai um modelo novo de um grande laboratório que sabe-se lá o que ele vai substituir? Será que a gente vai ser eliminado? Esse medo está aumentando.

Na Califórnia, existe a discussão entre os pessimistas e os otimistas com a IA. O sr. acredita no risco de extinção em massa por causa da tecnologia?

Eu vou fazer uma analogia: imagine estar no Projeto Manhattan. Nós estamos inventando uma tecnologia que não existia. Tem dois futuros possíveis, um em que a gente vai curar o câncer, vai descobrir um monte de solução de problema, e tem o outro em que a gente vai explodir uma bomba. A escolha do futuro é nossa. Os cientistas do Projeto Manhattan ficaram abismados quando viram a bomba explodir.

A boa notícia é que a gente ainda está no controle desse futuro. Se a gente não tomar cuidado e não for intencional nas escolhas, os pessimistas estarão certos e o mundo vai ter um problema sério.


RAIO-X – MAT VELLOSO, 49

Formado em administração de empresas pela UnB e programador autodidata, Mat Velloso liderou times de IA no Google, onde foi vice-presidente, e foi parte do superlaboratório de inteligência artificial da Meta. Ele deixou a big tech de Zuckerberg em fevereiro para orientar empresas brasileiras.

Autor: Folha

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