O programa Agora Tem Especialistas, principal aposta do governo Lula para reduzir as filas de consultas, exames e cirurgias no SUS (Sistema Único de Saúde), ampliou a oferta de atendimentos, mas ainda não conseguiu demonstrar que reduziu de forma consistente o tempo de espera dos pacientes, especialmente nos procedimentos de maior complexidade.
Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), que analisou mais de 768 milhões de registros de saúde entre 2023 e 2025, mostra que um quarto dos pacientes enfrenta esperas cada vez mais longas —algumas acima de um ano— de cirurgias como para câncer de tireoide, neurocirurgias vasculares, correções de escoliose e paratireoidectomias, para retirada das glândulas que controlam o cálcio do organismo.
Para o tribunal, os casos evidenciam gargalos estruturais relacionados à escassez de profissionais especializados, à concentração da oferta em poucos centros de referência e às dificuldades de organização das redes regionais de atenção.
Gerido pelos governos federal, estaduais e municipais, o Agora Tem Especialistas recebeu R$ 3,3 bilhões em 2025, ano em que o programa foi instituído, para ampliar atendimentos cirúrgicos e ambulatoriais. A auditoria reconhece que a produção cirúrgica aumentou e voltou ao patamar anterior à pandemia em diversas especialidades, mas afirma que esse avanço, por si só, não comprova redução das filas.
O relatório mostra que o ritmo de crescimento da produção caiu de 45,6% em 2022 para 20,3% em 2023 e 2024, chegando a 4,5% em 2025. Para o TCU, a desaceleração indica que o sistema se aproxima do limite de sua capacidade operacional. A partir desse ponto, novos avanços dependerão menos da ampliação do financiamento e mais da capacidade do SUS de reorganizar sua oferta de serviços especializados.
A auditoria também apontou falhas na integração dos sistemas de informação, na gestão e na transparência do programa. Segundo o TCU, o Ministério da Saúde ainda não dispõe de uma base nacional capaz de acompanhar o percurso do paciente desde a entrada na fila até a realização do procedimento, dificultando medir o tamanho real da demanda e avaliar o impacto da política pública.
O relatório, assinado pelo ministro Bruno Dantas, determinou, entre outras medidas, que o ministério passe a monitorar e divulgar a execução dos recursos do programa e apresente um plano de ação com prazos e responsáveis para corrigir as falhas identificadas.
O secretário de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Mozart Julio Tabosa Sales, concorda que a integração dos dados ainda é insuficiente, o que dificulta demonstrar se houve de fato uma redução nacional do tempo de espera por procedimentos após o início do programa.
Ele afirma que esse é um dos principais eixos da nova etapa do programa e que praticamente todos os estados já enviam informações de produção ao ministério. O desafio agora é qualificar esses dados e integrar os sistemas estaduais de regulação. A expectativa é que, até o fim deste ano, o país disponha de um painel nacional capaz de acompanhar os tempos de espera e o percurso dos pacientes.
“Não é só saber quantas pessoas estão na fila. É preciso saber há quanto tempo estão esperando, em que etapa do atendimento se encontram e qual é a gravidade de cada caso”, afirmou à Folha.
De acordo com Mozart, a nova fase do programa busca substituir a lógica de procedimentos isolados por linhas completas de cuidado, nas quais consulta, exames, diagnóstico e tratamento são organizados como um único processo. São as chamadas OCIs (Ofertas de Cuidado Integrado), que reúnem toda a jornada assistencial do paciente.
Na avaliação do secretário, boa parte da implantação das OCIs ocorreu durante o período analisado pelo tribunal, o que ajuda a explicar a baixa execução observada. Ele afirma que o modelo ainda atravessa uma curva de aprendizado e exige mudanças profundas na organização da atenção especializada.
A auditoria aponta grande desigualdade regional na implantação dessa estratégia. Embora quase 90% dos municípios tenham aderido às OCIs, apenas 6,9% das ofertas previstas haviam sido executadas no período analisado. Em sete estados, nenhuma oferta integrada chegou a ser realizada.
Mozart contesta parte das conclusões da auditoria. Segundo ele, o TCU avaliou apenas dois componentes do Agora Tem Especialistas —as OCIs e as cirurgias— e deixou de fora iniciativas como expansão da radioterapia, contratação de especialistas, aquisição de equipamentos, transporte sanitário e reorganização do diagnóstico do câncer.
Americana, no interior paulista, tornou-se uma das referências nacionais na implantação do modelo das OCIs. A prefeitura reorganizou a rede para acompanhar cada paciente ao longo da linha de cuidado e automatizou parte da gestão das OCIs. Entre julho de 2025 e maio deste ano, o município realizou mais de 16 mil ofertas integradas.
Na cardiologia, a fila para a primeira consulta caiu de um ano para cerca de 30 dias. “A lógica mudou completamente. O paciente passa pelo especialista, faz os exames, recebe o resultado e retorna ao médico no mesmo dia”, afirma Danilo Carvalho Oliveira, secretário municipal de Saúde e primeiro vice-presidente do Cosems-SP (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo).
Segundo Oliveira, o sucesso depende menos do financiamento e mais da capacidade de gestão. Americana implantou um sistema próprio para automatizar autorizações e criou os mutirões “Mil Cuidados”, nos quais consultas, exames e retornos são concentrados em um único dia.
Para ele, a experiência demonstra que as OCIs podem reduzir filas quando há integração entre prestadores, regulação e acompanhamento permanente do paciente.
Na avaliação do economista da saúde André Medici, consultor internacional e diretor do Universal Health Monitor, a auditoria confirma problemas apontados desde o lançamento do programa. “O que mais chama atenção é a confirmação de que o programa ainda não dispõe de instrumentos suficientes para provar que está reduzindo filas de forma sustentável.”
Segundo ele, aumentar a produção não basta. “As filas não começam na cirurgia; começam na consulta especializada, no exame diagnóstico, na regulação clínica e na capacidade de definir prioridade.”
Para Medici, seria necessário apresentar séries históricas comparáveis, tempos médios de espera antes e depois, número de pacientes efetivamente retirados das filas e critérios de priorização. Sem isso, não se sabe se houve redução das filas ou apenas continuidade da recuperação após a pandemia.”
Na sua opinião, o relatório expõe mais do que dificuldades de um programa específico. “Ele revela uma fragilidade histórica do SUS: a atenção especializada sempre foi o elo mais desorganizado entre a atenção primária e o hospital.”
Sem reorganizar as redes, fortalecer a regulação e integrar os sistemas de informação, afirma o economista, o país corre o risco de transformar a redução das filas em uma sucessão de mutirões, sem capacidade de produzir resultados permanentes.
Autor: Folha








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