terça-feira, julho 21, 2026
16.1 C
Pinhais

Comportamento robótico molda debate do tarifaço nos grupos – 20/07/2026 – Encaminhado com Frequência

A semana foi dominada pela confirmação do tarifaço. Na quarta-feira (15), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou a tarifa de 25% sobre uma leva de produtos brasileiros.

O governo Lula atribuiu o desgaste à articulação da família Bolsonaro em Washington, enquanto a oposição respondia culpando o governo pelo isolamento comercial. A decisão veio poucos dias depois de Flávio Bolsonaro cruzar o continente para falar na audiência do USTR, órgão do governo americano responsável por coordenar a política comercial do país.

No monitoramento em tempo real da Palver, com mais de 100 mil grupos de mensageria, foi possível observar essa reação com uma lente nova. Além de medir quem apoia e quem ataca cada figura, agora podemos distinguir dois tipos de participantes na conversa.

De um lado, o comportamento orgânico, usuários que de fato discutem, respondem uns aos outros, divergem, reagem ao que leem. De outro, o comportamento coordenado ou robótico, perfis que enviam conteúdo de forma unilateral, despejando as mesmas peças em série sem interagir com ninguém.

“Coordenado” não quer dizer que sejam robôs necessariamente, existem militantes e cabos digitais. Contudo, é possível notar que as conclusões mudam quando passamos a incorporar essa variável na análise.

A maioria das mensagens sobre a tarifa não é gente conversando, são disparos coordenados, mais de 80% das mensagens originam de perfis com esse comportamento.

E apenas 1% dos usuários concentram 32% do volume da discussão inteira sobre o tema. Esse dado demonstra que as máquinas já começam a operar na pré-campanha e que os militantes estão mais dispostos a engajar na disputa de narrativas.

Quando olhamos os dados sem distinção do comportamento dos usuários, o cenário favorece Flávio Bolsonaro.

A aprovação do pré-candidato chega a 40% contra apenas 28% de aprovação do presidente Lula. Mas, quando se olha apenas para os usuários com comportamento orgânico, a aprovação de Flávio cai para 31% e a de Lula sobe timidamente para 30%. A força que o senador aparenta ter nas conversas sobre o tema é, em boa medida, produzida pelo volume coordenado, e desaparece quando se olha só para quem debate de verdade.

O segundo ponto que investigamos é a atribuição de culpa pela tarifa. O total aparece quase empatado entre os que responsabilizam Flávio e os que responsabilizam Lula.

Mas, entre os usuários orgânicos, a conta abre de forma nítida, e a culpa recai sobre Flávio numa proporção de 49%, enquanto apenas 24% a atribuem a Lula. O restante da atribuição de culpa é neutro ou noticioso.

Mais de 92% das mensagens que atribuem culpa a Lula possuem comportamento coordenado, na maior proporção de comportamento automático de todos os temas. A pessoa real, que de fato debate e responde, responsabiliza Flávio pela viagem e pelo resultado.

Quando se mede qual lado dispara mais, a assimetria fica clara. Tomando a média da conversa como referência, o conteúdo mais coordenado de todo o material é justamente a narrativa que defende Flávio e ataca Lula.

Na direção oposta, o único tipo de mensagem que aparece mais orgânico que a média é a crítica a Flávio.

O que os usuários orgânicos expressam aqui coincide com o que a pesquisa Quaest apontou por um método completamente diferente, que o tarifaço desgasta mais Flávio do que Lula.

Dois caminhos independentes que chegam ao mesmo lugar, com a informação complementar do monitoramento que mostra o mecanismo por trás.

É importante ler esse dado com cuidado. A acurácia do modelo que criamos para determinar o comportamento dos usuários é maior que 93%, e ainda assim o que ele detecta é apenas o tipo de comportamento.

O que chamamos de “orgânico” quer dizer que o usuário debate os assuntos que aparecem com outros usuários. O que chamamos de “robótico” não vem necessariamente de robôs, e sim de perfis que praticamente nunca interagem com os outros.

É bem possível que parte deles sejam apenas militantes de verdade, mas o que o dado revela é que boa parte dessa atividade não é espontânea, e sim panfletagem digital.

Isso mostra como certos números das análises de redes podem enganar, e como esse mecanismo tende a se intensificar à medida que a campanha avança. E serve de alerta na direção contrária também, porque não se pode ignorar o papel desse tipo de comunicação.

Assim como a panfletagem de rua, o disparo coordenado circula muito e pode influenciar e mudar opiniões. Saber separar o que é gente do que é máquina não serve para descartar uma das duas, e sim para entender o tamanho real de cada uma na conversa que vai decidir a eleição.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas