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Calor na gravidez pode afetar desenvolvimento do bebê – 01/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

As ondas de calor podem deixar marcas que começam ainda durante a gestação e se prolongam para além do nascimento, mostram três estudos conduzidos por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), ligados ao Cpapi (Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância).

Em conjunto, os resultados apontam para um possível “efeito cascata” do calor extremo: alterações provocadas na gestação podem comprometer o crescimento fetal, antecipar o parto e influenciar aspectos físicos, cognitivos e emocionais da criança.

Os pesquisadores acompanharam 946 bebês nascidos em maternidades públicas de Ribeirão Preto (SP), entre 2023 e 2024, e cruzaram dados detalhados de temperatura, localização das famílias e avaliações do desenvolvimento infantil. Também foram analisadas informações de mais de 12,7 milhões de nascimentos registrados no país.

O trabalho faz parte de um projeto de pesquisa de longo prazo financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), com colaboração da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Um dos estudos avaliou o impacto das ondas de calor —definidas como períodos de pelo menos três dias consecutivos com temperaturas acima de 35°C— sobre os desfechos do nascimento. Cada dia adicional de exposição durante a gravidez esteve associado a uma redução média de 17,4 gramas no peso do bebê e de 0,1 centímetro no comprimento.

Considerando a exposição média observada, de cerca de seis dias de calor extremo durante a gestação, a redução chegou a quase cem gramas no peso ao nascer. A exposição ao calor também esteve associada ao aumento de complicações hipertensivas, como pré-eclâmpsia e eclâmpsia.

“Quando a mãe sofre as ondas de calor, aumenta a probabilidade de ela ter eclâmpsia e outros problemas. Isso acaba diminuindo o tempo de gestação, a criança nasce com peso menor e isso vai afetá-la ao longo da vida”, afirma o economista Naércio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, pesquisador do Cpapi e coordenador do estudo.

A equipe controlou fatores como idade materna, escolaridade, raça, características geográficas, histórico de temperatura, precipitação e condições socioeconômicas para reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados por outros fatores. Diabetes gestacional, tabagismo, infecções e insegurança alimentar não explicaram os efeitos encontrados.

Para o pediatra infectologista Renato Kfouri, da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) e embaixador da organização Médicos pelo Clima, os resultados reforçam uma evidência que vem crescendo na literatura científica sobre os impactos das altas temperaturas na saúde materna e infantil.

Kfouri ressalta, porém, que estabelecer uma relação direta entre calor e desfechos gestacionais ainda é um desafio, porque os grupos mais expostos às altas temperaturas também costumam ser aqueles em maior vulnerabilidade social.

“É difícil estabelecer uma relação só do calor, porque geralmente essas populações que sofrem mais com calor são justamente as mais vulneráveis. Qualquer impacto gestacional no desenvolvimento é multifatorial. Há vieses de confusão nem sempre fáceis de serem eliminados”, afirma.

Segundo o especialista, estudos anteriores, como uma revisão publicada em 2024 no The Lancet, já apontaram associações entre temperaturas elevadas e problemas como parto prematuro e restrição de crescimento fetal. O mecanismo biológico estaria relacionado principalmente às alterações provocadas pelo calor na circulação materna e na placenta.

O impacto do calor tem consequências principalmente em relação à nutrição placentária. “O calor provoca vasodilatação, redução de líquidos, aumento do débito cardíaco e, com isso, dificuldade de nutrição do feto, repercutindo em peso, parto prematuro, óbito fetal e abortamento”, diz.

Impactos no desenvolvimento infantil e comportamento

O segundo estudo dos pesquisadores do Cpapi avaliou o desenvolvimento infantil entre 6 e 10 meses de idade. Foi encontrada uma associação entre exposição ao calor extremo na gestação e pior desempenho em habilidades motoras grossas, como sentar, engatinhar e se locomover, além de dificuldades em tarefas relacionadas à resolução de problemas, um marcador precoce de desenvolvimento cognitivo.

Cada dia adicional de onda de calor esteve associado a aumento de 1,5 ponto percentual no risco de atraso motor grosso e de 0,9 ponto percentual no risco de atraso em resolução de problemas.

Um terceiro estudo analisou comportamento e bem-estar dos bebês e identificou maior irritabilidade e dificuldades de rotina, como sono e alimentação, entre crianças expostas ao calor durante a gestação.

Cada dia adicional de onda de calor esteve associado a aumento de 4,1 pontos percentuais no risco de irritabilidade considerada clinicamente relevante e de 3,6 pontos percentuais no risco de problemas relacionados à rotina.

A pesquisa também observou que mães mais expostas ao calor apresentaram maior probabilidade de sintomas depressivos no período pós-parto. A depressão materna explicou entre 21% e 33% dos efeitos observados sobre o comportamento infantil, segundo os pesquisadores.

Para Menezes Filho, gestantes e bebês precisam ser considerados grupos prioritários nas políticas de adaptação climática. Entre as medidas sugeridas estão alertas específicos para ondas de calor, orientação durante o pré-natal e monitoramento mais rigoroso da pressão arterial.

Ele alerta que ondas de calor também podem comprometer o acompanhamento das gestantes. “Análises preliminares indicam que algumas gestantes deixam de comparecer aos atendimentos em períodos muito quentes, o que exigiria busca ativa e remarcação de consultas pelo sistema de saúde.”

O estudo também evidencia uma lacuna no acompanhamento do desenvolvimento infantil no Brasil. Na pesquisa, cerca de 11% das crianças apresentaram algum atraso segundo um instrumento internacional utilizado para avaliação do desenvolvimento, o ASQ (Ages and Stages Questionnaire).

Segundo Menezes Filho, o país ainda não possui um indicador nacional sistemático sobre essa dimensão. “Na caderneta da criança existe uma parte com perguntas de desenvolvimento, mas, em geral, os profissionais preenchem principalmente peso e comprimento. Se essa informação fosse registrada de forma adequada, seria possível fazer um rastreamento no Brasil inteiro”, afirma.

A coorte de Ribeirão Preto continuará acompanhando as crianças aos 18 e 36 meses para avaliar se os efeitos iniciais observados persistem e se podem repercutir no desenvolvimento infantil e aprendizado escolar futuro.

Diferentemente de estudos anteriores voltados principalmente para indicadores epidemiológicos, como mortalidade e amamentação, essa pesquisa tem foco específico em habilidades cognitivas, motoras e comportamentais.

Autor: Folha

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