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Deficiência visual cria amizade após saída de show – 03/09/2026 – Haja Vista

Quando nós, cegos, vamos ao cinema, a um show ou a uma peça de teatro, a chegada é sempre muito mais fácil do que a partida.

Isso porque, com planejamento, conseguimos ir com alguma tranquilidade até a bilheteria e lá encontrar um funcionário do espaço ou bombeiro que nos leve até nosso assento.

Por outro lado, mesmo que se combine previamente, com uma frequência enorme esses profissionais não voltam para nos buscar ao final do espetáculo.

A situação fica mais desafiadora porque, na saída, como a casa costuma estar cheia, o risco de esbarrões ou bengaladas em espectadores que vêm de todas as direções aumenta exponencialmente.

Aconteceu assim há uma semana, quando eu e minha esposa fomos a um show do Humberto Gessinger. Ao chegar, nos conduziram à área reservada a pessoas com deficiência e nos divertimos tranquilamente. Ao final, aguardamos alguns minutos, o suficiente para acreditarmos que iríamos ter de encontrar nosso caminho sozinhos. Abrimos a bengala e fomos seguindo o fluxo e a direção das vozes.

Não por muito tempo. Logo o Thiago reparou em nós e se ofereceu para ir até a saída com a gente. Fomos conversando sobre música durante o caminho. Minha esposa falou que adorava os Engenheiros do Hawaii. Eu disse que era mais do time da Legião Urbana, mas preferia mesmo alguns músicos que já haviam desencarnado havia cerca de 150 anos. Mesmo assim, até tinha achado a noite divertida.


Ele também deve ter nos achado divertidos. Quando pedimos que nos deixassem com um funcionário do espaço para que tivéssemos ajuda para encontrar um carro chamado por aplicativo, o Thiago disse que não iria chamar ninguém, ele próprio e sua esposa, Luciana, iriam esperar do nosso lado. Aguardamos juntos uns dez minutos, o suficiente para nos conectarmos nas redes sociais.

Resultado: uma semana depois estávamos na casa deles, compartilhando um jantar feito sob medida pela Luciana. Já planejávamos um piquenique, um ensaio musical e uma visita a um templo de meditação. Acho que só não reservamos juntos uma viagem para a praia nas próximas férias porque já passava da meia-noite e seria abuso ficar até mais tarde.

Não foi a primeira nem será a última vez que aconteceu algo assim. À primeira vista pode parecer que a deficiência visual isola. Mas ela nos dá, a cada saída para a rua, a oportunidade de nos relacionarmos com pessoas de quem dificilmente nos aproximaríamos caso enxergássemos. Tem a amiga que, na escola, queria ler a lição na lousa para nós; têm os guias que nos acompanham em treinos de corrida no parque e viraram padrinhos de casamento; tem o ciclista que gosta tanto de pedalar com invisuais que deu um jeito de comprar uma bicicleta tandem e nos chama para sair com ele toda semana.

Não ter visão e querer viver uma vida intensa e independente significa depender, em muitas atividades, da colaboração de gente que jamais conheceríamos de outro modo, nem que seja só para atravessar a rua.


A parte mais legal da história é que a deficiência visual funciona mais ou menos como um ímã.

As pessoas boas e corajosas, dispostas a ceder alguns minutos do seu tempo para ajudar, se aproximam da gente e entram para uma coleção de amigos.

Por outro lado, pessoas preconceituosas, que acreditam que deveríamos andar sempre com um familiar ou amigo responsável por cuidar de nós, se afastam assim que aparecemos em seus caminhos. E, sem ver seus olhares de censura ou espanto, podemos até acreditar de vez em quando que o mundo está lotado de pessoas maravilhosas.


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Autor: Folha

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