Letícia Leal, 41, nunca passou mais de três meses em um relacionamento com um homem, mas só se entendeu como lésbica aos 39. Sandra de Paula, 60, viveu um casamento de 20 anos com um homem e descobriu, aos 48, que se sentia atraída por mulheres. Thaís Barbosa, 34, teve uma relação de 17 anos e dois filhos, mas, aos 31, pediu o divórcio e hoje é casada com uma mulher.
Neste sábado (29), Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, a trajetória de mulheres que passaram anos em relacionamentos com homens mostra que reconhecer a própria orientação sexual pode acontecer em diferentes momentos da vida —nem sempre como ruptura com uma vida infeliz, mas como uma nova forma de entender o próprio desejo.
Não há uma resposta única que explique o que leva uma mulher a se entender como lésbica depois de passar boa parte da vida em relações heterossexuais. A pesquisadora Joana Ziller, coordenadora do grupo de estudos em lesbianidades da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que a atração e o desejo podem mudar ao longo da vida.
“O desejo é uma coisa fluida. Algo que eu nunca desejei na minha vida eu posso passar a desejar em algum momento. Isso não se dá só no campo da sexualidade, mas em diversos campos da vida”, diz.
Ao mesmo tempo, segundo Ziller, as pessoas são afetadas pela chamada heterossexualidade compulsória, conceito que descreve a pressão social e cultural para que os relacionamentos heterossexuais sejam vistos como norma.
Para a pesquisadora lesbofeminista Natália Kleinsorgen, essa pressão começa a ser sentida ainda na infância. “Todo menino é criado para ser hétero, e toda menina também é criada para ser hétero”, afirma. A falta de referências lésbicas também pode dificultar que uma mulher reconheça a possibilidade de sentir atração por outras mulheres.
Ziller diz que a heterossexualidade compulsória pode fazer com que mulheres não se permitam, durante parte da vida, considerar ou explorar outras formas de relação. Para ela, existem constrangimentos sociais que levam algumas mulheres a nem sequer pensar na possibilidade, enquanto outras podem considerá-la e refutá-la.
Foi nesse contexto que Letícia cresceu. Violeira e professora de muay thai em Belo Horizonte, ela conta que gostava de atividades pouco associadas ao universo feminino, como jogar bola e montar a cavalo, e percebia em casa o medo de que fosse lésbica. De família conservadora e religiosa, diz que passou anos tentando corresponder às expectativas e engatou relacionamentos com homens, ainda que curtos.
Na adolescência e no início da vida adulta, porém, não sentia desejo sexual nem por homens nem por mulheres. “Eu sempre tive amigas que eu admirava muito, mas não era tesão. Isso numa época me bugou a cabeça.”
Para ela, as relações heterossexuais eram marcadas por uma hierarquia, na qual o homem ocupava uma posição de superioridade e de provedor. Essa dinâmica, diz, também aparecia no sexo, em que o prazer feminino ficava em segundo plano.
Aos 26 anos, depois de enfrentar uma depressão grave, Letícia passou por um processo de reconstrução dos próprios desejos. E conta que, aos 37, sentiu atração por uma mulher pela primeira vez. “O espaço-tempo desaparece quando estou com uma mulher, é um negócio que se expande”, afirma.
Dois anos depois, entendeu-se como lésbica. Na família, a mãe teve mais dificuldade para compreender sua orientação sexual, enquanto o pai ficou feliz por vê-la feliz. Letícia hoje namora uma mulher há três anos, no primeiro relacionamento que ultrapassou a marca dos três meses.
Diferente da professora de muay thai, Jéssica Bonfioli viveu relações mais duradouras com homens. Criadora de conteúdo, ela ficou conhecida por vídeos de receitas e humor ao lado do então namorado, com quem ficou por quase dez anos. Em 2023, aos 28 anos, anunciou o rompimento após entender que era lésbica.
A virada aconteceu quando se envolveu com uma mulher junto com o então parceiro e observou um novo tipo de desejo. “Eu nunca tinha olhado para um homem e sentido atração por ele, pelo corpo dele, por nada.”
A experiência a fez reinterpretar relações anteriores e perceber que o que sentia pelos homens não correspondia ao que passou a identificar como atração.
A descoberta de Sandra de Paula se deu em circunstâncias diferentes. A consultora de projetos foi casada por 20 anos com um homem. A relação, segundo ela, era boa e terminou de forma amigável, sem ligação com sua orientação sexual, que só seria descoberta depois.
Em 2014, quando se separou, amigas tentaram ajudá-la a voltar a namorar e criaram um perfil em um aplicativo de relacionamento. Recebeu mensagens de homens, e a única mensagem que recebeu de uma mulher a fez pensar pela primeira vez, aos 48 anos, na possibilidade de se relacionar com alguém do mesmo sexo.
“Será que é possível? O que é o relacionamento com uma mulher? Será que meu corpo vai responder?”, lembra de questionar a si mesma.
Com essa mulher, percebeu aspectos do próprio prazer que nunca havia notado. Segundo Sandra, até então ela estava condicionada a olhar para homens como única possibilidade de interesse amoroso.
Para a psicóloga Mariana Farinas, especialista em sexualidade humana pela USP (Universidade de São Paulo), muitas vezes a mulher até pode ter sentido atração por outras mulheres antes, mas não conseguiu reconhecer ou viver esse desejo por fatores sociais e familiares. Mas o desejo também pode se modificar ao longo da vida, e essa fluidez é natural, diz a psicóloga.
A relação com outra mulher também pode revelar novas possibilidades de vínculo, prazer e autonomia. Foi o que aconteceu com Thaís. Criadora de conteúdo digital, ela se entendeu como lésbica há três anos, quando estava em um casamento heterossexual de 17 anos e tinha dois filhos, hoje com 8 e 10 anos.
Thaís conta que passou anos seguindo o que entendia como o roteiro ideal: estudar, namorar, trabalhar, se casar e ter filhos. Afirma, porém, que não sentia desejo pelo marido e encarava a vida sexual como uma obrigação. Ouvia de outras mulheres que essa falta de interesse era normal e demorou a perceber que não queria aquela vida.
Na terapia, começou a revisitar sentimentos da adolescência, como o encantamento e o ciúme que sentia por outras meninas, mas que havia interpretado como amizade ou admiração.
De acordo com Kleinsorgen, esse processo de olhar para a própria história é comum entre mulheres que se descobrem lésbicas mais tarde. “Geralmente ela percebe que não se apaixonou pela primeira vez aos 50. É que ela simplesmente não sabia que era possível”, afirma a pesquisadora.
No caso de Thaís, a descoberta ganhou outra dimensão quando se apaixonou pela melhor amiga e decidiu pedir o divórcio. “Foi uma certeza absoluta”, conta.
Hoje Thaís é casada com Monique Barbosa, 41, e vive em Goiânia com os dois filhos. Em maio deste ano, criou no Instagram o perfil Depois do Armário, para falar sobre a própria experiência e chegar a outras mulheres. “Eu sinto uma felicidade que eu não sabia que seria possível”, afirma.
Mas nem sempre a descoberta ocorre após uma vida sexualmente orientada para homens. Aline Peixoto, 34, professora de canto, atriz e compositora, conta que se relaciona com meninas desde a adolescência, mas demorou a questionar o que essas experiências significavam.
Em 2020, aos 28 anos, passou a se entender como lésbica. A mudança, entre outros fatores, veio quando Aline percebeu que ocupava uma posição menor nessas relações. “Eu não precisava escolher ficar com homens, não precisava viver isso.”
Ela também demorou para definir a si própria por ter dificuldade com rótulos e medo de não poder voltar atrás. Dizer “sou lésbica” ou “sou bissexual”, conta, parecia exigir explicações que a heterossexualidade, tratada como padrão, não exige.
Autor: Folha








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