Adotar uma alimentação rica em hortaliças, frutas, grãos integrais e leguminosas pode contribuir para proteger os rins e reduzir o risco de doença renal crônica (DRC), segundo estudo publicado em janeiro no periódico científico Canadian Medical Association Journal.
Ao avaliar dados de 179.508 participantes acompanhados por 12 anos por meio do UK Biobank —pesquisa britânica que monitora as condições de saúde de cerca de meio milhão de pessoas—, pesquisadores da Universidade Médica do Sul, na China, observaram uma associação entre a dieta EAT-Lancet, conhecida como “dieta para a saúde planetária“, e menor risco de doença renal crônica.
Participantes com maior adesão a esse padrão alimentar apresentaram menor probabilidade de desenvolver DRC, marcada pela presença de lesões nos rins com impactos na taxa de filtração, contribuindo para uma perda progressiva da função renal.
“Analisando marcadores no sangue, observou-se que 20% do efeito protetor vindo da dieta planetária parece estar ligado a mudanças no metabolismo que reduzem a inflamação“, afirma a nefrologista Patrícia Goldenstein, do Einstein Hospital Israelita. Segundo os autores do trabalho, esse modelo alimentar, que estimula o consumo de vegetais, também ajudaria a combater o estresse oxidativo. Assim, tanto a ação anti-inflamatória como a atuação antioxidante beneficiariam os rins.
Estima-se que entre 7% e 10% dos adultos brasileiros convivem com algum grau de comprometimento renal, de acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia. “E o mais preocupante é que grande parte dessas pessoas nem sabe que tem”, diz Goldenstein. Isso porque o problema costuma avançar de forma silenciosa.
O crescimento progressivo de casos acompanha mudanças no perfil da população, entre elas o aumento de doenças como diabetes, hipertensão e obesidade, que são fatores de risco para a lesão renal. Portanto, manter um estilo de vida saudável ajuda a prevenir a doença, e alimentação equilibrada é um dos principais pilares.
Considerada modelo de sustentabilidade, a dieta planetária foi criada em 2019 por uma comissão com 37 estudiosos de 16 países. “Recomenda-se priorizar vegetais e diminuir o consumo de itens de origem animal, sobretudo a carne vermelha, pelo impacto ambiental”, afirma a nutricionista Bruna Aparecida Farias, também do Einstein.
Além de indicar o consumo equilibrado de frutas, legumes, verduras, grãos integrais, feijões e castanhas, a dita planetária estimula modelos sustentáveis para a produção de alimentos e valoriza a biodiversidade. Também chama atenção para a redução do açúcar de adição, além de questões como a utilização de água e a emissão de gases de efeito estufa.
Para adequar a dieta ao gosto brasileiro, vale apostar em um cardápio recheado com espécies nativas, sobretudo as frutas tropicais, que esbanjam vitaminas, sais minerais e compostos bioativos de ação antioxidante e anti-inflamatória. “Destaque ainda para o feijão, que faz parte da nossa cultura alimentar”, observa Farias.
Por outro lado, a nutricionista alerta para uma das nossas preferências, o churrasco, que deve ser apreciado em ocasiões especiais, não de forma corriqueira. “Lembrando que o modelo da dieta planetária não é radical, nem de exclusão. Prega o equilíbrio”, frisa.
Ao reduzir o consumo de carne vermelha, a tendência é diminuir os teores de gordura saturada, de toxinas urêmicas (resíduos metabólicos) e de fósforo, além da carga ácida. Há evidências de que extrapolar o consumo dessas substâncias favoreça males renais.
O exagero proteico também está por trás de problemas. “A proteína não é vilã, mas seu excesso pode aumentar a pressão nos glomérulos”, adverte a nefrologista. Ela se refere às estruturas microscópicas dos rins que são responsáveis pela filtragem. Segundo Goldenstein, se esse processo se repetir por muitos anos, pode acelerar a perda de função, principalmente em quem já tem risco. “Vale ressaltar que toda dieta deve ser individualizada, baseada nos exames do paciente, e é fundamental dosar níveis de potássio, fósforo e sódio, por exemplo”, recomenda.
Exceder no sal e no açúcar pode causar males como hipertensão arterial e resistência à insulina, que também prejudicam o órgão. Sal além da conta também pode levar à formação de pedras nos rins. “O excesso de sódio aumenta a excreção de cálcio pela urina, contribuindo para um risco maior do cálculo”, explica a médica.
Os cálculos renais têm tudo a ver com o estilo de vida. “O principal fator é a pouca ingestão de água”, afirma Patrícia Goldenstein. Quando há baixa hidratação, a urina fica mais concentrada, facilitando o aparecimento de cristais que, com o tempo, podem se tornar pedras. Por isso, capriche —mas com água mesmo, não vale bebida açucarada ou alcoólica.
Autor: Folha








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