Hackers que assumiram o controle de geladeiras em centenas de supermercados franceses exploraram falhas básicas de segurança dos varejistas para realizar um ataque cibernético que estragou alimentos e provocou incêndios, afirmou o chefe da agência de segurança cibernética do país.
Vincent Strubel, diretor da Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI, na sigla em francês), disse ao Senado francês nesta quarta-feira (21) que, aparentemente, senhas fracas e a ausência de proteções cibernéticas elementares permitiram que criminosos acessassem os sistemas de refrigeração conectados à internet neste mês.
Em alguns casos, geladeiras cheias de alimentos foram aquecidas a temperaturas de até 80°C. O ataque extraordinário acendeu o alerta na França. Dominique Schelcher, presidente da rede Coopérative U, classificou a ofensiva como um ataque “sem precedentes” e “extremamente grave” à segurança alimentar do país.
Entre as outras redes afetadas estão Carrefour, Intermarché, Monoprix e Netto. O custo dos alimentos perdidos e dos equipamentos danificados pode chegar a dezenas de milhões de euros em todo o setor, segundo Thierry Cotillard, presidente do grupo Les Mousquetaires, dono das redes Intermarché e Netto.
As conclusões preliminares da ANSSI parecem contradizer análises de terceiros, que haviam identificado vulnerabilidades de segurança no firmware de versões desatualizadas do software das geladeiras comprometidas.
“Nossa análise, neste momento, é que essas vulnerabilidades não foram exploradas. Foram falhas básicas de segurança, a começar pela exposição direta dos equipamentos de refrigeração à internet e por sua administração sem medidas específicas de proteção, além de senhas fracas e coisas desse tipo”, afirmou Strubel.
A maioria das redes de supermercados terceiriza a gestão de seus sistemas de refrigeração, observou uma pessoa familiarizada com o caso. Segundo ela, os operadores não sabiam que os sistemas estavam desprotegidos ou que as senhas eram fracas.
Desde 2014, a ANSSI atualiza regularmente os guias que publica para proteger sistemas industriais. “Está claro que nossas recomendações não são seguidas de maneira sistemática”, afirmou Strubel. “Hoje, não temos como controlar isso, e é responsabilidade fundamental de uma empresa implantar esses sistemas com segurança, independentemente de ela seguir ou não as regras” recomendadas pela agência, acrescentou.
O grupo Les Mousquetaires se recusou a comentar. Os demais varejistas afetados pelo ataque não responderam aos pedidos de comentário.
As investigações sobre a invasão, conduzidas pela ANSSI e pela unidade de crimes cibernéticos da Promotoria de Paris, continuam em andamento. Até o momento, ninguém reivindicou a autoria do ataque, e nenhum responsável foi identificado.
Strubel afirmou que a ANSSI trabalha com organizações de outros setores críticos para garantir que instalações como hospitais, farmácias e laboratórios protejam seus sistemas de refrigeração.
“Realizamos um trabalho extremamente intenso, muito rápido e muito eficaz com [as autoridades de saúde e as empresas] para garantir que essas geladeiras, usadas para armazenar materiais às vezes perigosos e às vezes essenciais para a saúde de nossos concidadãos, estivessem devidamente protegidas”, disse.
Autor: Folha








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