Se consumir é um ato político, faríamos boa política pensando nos empregos e no bem-estar que as marcas que consumimos promovem. E, no caso das esportivas gringas que fabricam aqui, o quanto reinvestem no Brasil.
Boa parte delas produz no polo calçadista de Novo Hamburgo (RS) os tênis que são vendidos no Brasil, mas sobressaltos tarifários e cambiais podem mudar a cena. Várias têm plantas industriais na Ásia, de onde vêm 9 de cada 10 pares produzidos no mundo.
A coisa se complica ainda mais em empresas de capital aberto cujo grande gestor é o interesse de acionistas sem rosto. “We are only in it for the money”, como cravou lá atrás Frank Zappa.
Mas defender o empresariado brasileiro é dureza: quem troca parte do lucro por justiça social ou por preocupação ambiental? Quem deixa de endossar líderes políticos aloprados? Quem de fato faz algo para funcionários, comunidades do entorno e pessoas impactadas em vez de apenas embelezar seus relatórios anuais?
François Morillion e Sebastien Kopp, amigos franceses de infância e ambos egressos do mercado financeiro, vieram ao Brasil há 20 anos e talvez possam um dia ser lembrados como os caras que mudaram alguns padrões por aqui. Veja, a marca que fundaram, hoje presente em mais de cem países, tem como princípios a prática do comércio justo e a preocupação ambiental.
O repórter João Perassolo escreveu nesta Folha, ano passado, sobre eles: “Em Rondônia, encontraram uma cooperativa de produtores de palmito, momento em que contam ter percebido a importância de valorizar os pequenos produtores que tratam o bioma com cuidado”.
Antes do acerto com os gaúchos, a dupla procurou cooperativas de pequenos produtores de algodão e de borracha, matérias-primas dos tênis. Nas relações estabelecidas, chegam a pagar de três a cinco vezes a média do mercado e oferecem bônus caso metas de sustentabilidade sejam atingidas.
Coletores de garrafas PET paulistas também entraram para a rede. No vídeo em que explicam a raison d‘être de Veja, o começo de tudo é a visão das condições de moradia dos trabalhadores numa fábrica chinesa: grupos de 32 pessoas espremidas em ambientes de 25 m2 com um buraco no chão a dublar de banheiro. “A globalização não funcionou.”
Morillion já disse ser “fissurado” por tênis. E como ele é uma espécie de bezerro de ouro do capitalismo contemporâneo, produto fetichizado e consumido muito mais por amor ao “brand”, decidiu fabricá-lo, quem sabe para desconstruir essa lógica.
A chave para pagar mais aos fornecedores é destinar a eles o que o setor empenha em marketing –70% do custo do produto, segundo os fundadores.
Estive por quatro ou cinco dias às expensas de Veja visitando as instalações fabris, no Sul, e em Paraty, onde participei no sábado (19) de uma corrida de trail de 27 km –uns 26,9 km na lama. A razão do convite foi testar o novo Harpie, tênis de trilha que custa R$ 980 e mostrou-se muito confiável na mais escorregadia das superfícies –gelo não vale.
Os fundadores não vieram, mas sim jovens executivos, gerentes e representantes de várias partes do mundo. Todos correram, e Sophie Bouquet, Head de Desenvolvimento, ganhou a prova de 53 km.
Impressionou-me sermos tratados todos, inclusive eu e colegas brasileiros bem mais jovens, como velhos parças. Um outro mundo corporativo pareceu possível.
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Autor: Folha








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