Há cem anos, a maioria das pessoas via de perto como um parente morria, em casa, cercado pela família. Hoje, segundo a médica canadense Stefanie Green, a morte foi deslocada para hospitais e cercada de máquinas —o que, para ela, tornou as pessoas menos familiarizadas com o processo e, por consequência, mais assustadas com ele.
Pioneira da assistência médica para morrer no Canadá, ela defende que essa mudança ajuda a explicar por que o tema é tão difícil de discutir abertamente, em qualquer sociedade.
Uma das primeiras médicas a oferecer o MAiD (sigla em inglês para assistência médica para morrer) no Canadá, logo após a prática ser legalizada, Green já acompanhou mais de 300 mortes assistidas no país. Ela é presidente fundadora da Camap (Associação Canadense de Avaliadores e Provedores de MAiD) e autora do livro “This Is Assisted Dying” (Isto é morte assistida, sem tradução no Brasil), sobre o primeiro ano de sua atuação na área.
Antes de migrar para o MAiD, Green passou mais de 20 anos como obstetra —uma trajetória que, segundo ela, tem mais semelhanças com seu trabalho atual do que poderia imaginar. “Não sou a pessoa mais importante na sala”, diz ela sobre o papel que exerce tanto num parto quanto numa morte assistida.
Autodeclarada guia em dois dos momentos mais intensos da vida, Green diz enxergar a morte assistida como um direito humano e rebate críticas de que a prática desrespeita a inviolabilidade da vida humana. “Vejo médicos como pessoas que ajudam pessoas”, diz. “Não percebo conflito entre esse trabalho e meus deveres profissionais e éticos. Eu durmo bem à noite.”
A canadense participará do primeiro simpósio internacional da Eu Decido, organização brasileira dedicada a pautar o debate no país, que ainda não tem legislação nem projeto de lei em tramitação sobre o tema. O evento online será na quarta (12), das 18h às 22h, com tradução simultânea.
A senhora foi uma das primeiras médicas a oferecer o MAiD no Canadá quando foi legalizado, em 2016. Como foi aquele primeiro ano e o que mudou desde então?
Médicos como eu estávamos sendo chamados para fazer algo que nunca tínhamos feito antes. Não sabíamos como ia funcionar. Na medicina, o ensino costuma seguir a lógica “veja, faça, ensine” —você aprende fazendo e observando quem veio antes, mas isso não era possível no Canadá. Então, no começo, parecia um grande salto às cegas para muitos de nós. Aquele primeiro ano respondeu boa parte das nossas perguntas.
O que não mudou é o aspecto emocional do trabalho: o alívio que os pacientes expressam quando conseguimos ter uma conversa honesta sobre as opções de fim de vida —uma conversa que a maioria nunca teve antes—, a gratidão que expressam por eu estar disponível para isso. O que mudou foi como as pessoas falam sobre o tema, os números, os dados, e, inclusive, a organização dos que se opõem.
Na maioria dos países que regulamentaram a morte assistida, foi o Parlamento quem aprovou a lei diretamente. Mas o Canadá é uma exceção —veio de uma decisão da Suprema Corte, que deu ao Parlamento um prazo de 12 meses para legislar. Como isso entrou em pauta no país? Havia apoio popular à morte assistida antes da legalização?
É importante entender que isso não aconteceu porque eleitores exigiram, nem porque algum governo achou que era uma boa ideia. Foi porque a Suprema Corte disse que, se certas pessoas em certas situações não tivessem a capacidade de pedir e receber isso, seria uma violação de seus direitos. No Canadá, a morte assistida é uma questão de direitos humanos, e isso é muito diferente de uma pauta parlamentar de qualquer partido —opiniões políticas podem mudar com o tempo, mas uma decisão judicial baseada em direitos constitucionais é mais sólida.
Falávamos sobre morte assistida desde os anos 1990, com o caso de Sue Rodriguez [ativista canadense pelo direito de morrer que tinha esclerose lateral amiotrófica], que não teve sucesso, mas iniciou uma conversa nacional. Pesquisas nacionais, antes e depois da decisão da Corte, mostram consistentemente forte apoio popular —números na casa dos 80% e acima. Depois da decisão, o prazo de 12 meses foi adiado por atrasos políticos, mas em junho de 2016 a primeira legislação foi aprovada e recebeu sanção real. A legislação inicial era mais restritiva que a decisão original da Corte, e há debate sobre essa lei desde então.
Esse é o melhor caminho para maior segurança jurídica sobre o tema?
Acredito que, quando vem pelos tribunais, é uma base muito forte para depois desenvolver legislação. Isso não quer dizer que fazer isso legislativamente desde o início seja uma má ideia —é um método eficaz, vemos isso ao redor do mundo. Mas ventos políticos podem mudar, e se a base for puramente legislativa, sem apoio de uma decisão judicial, é mais provável que fique instável ao longo do tempo. Sou a favor de como aconteceu no Canadá.
No Brasil, especialistas dizem que debates envolvendo autodeterminação tendem a ser especialmente difíceis. Agora, pela primeira vez, mais pessoas estão falando sobre a morte assistida. O que acha que explica essa aparente falta de interesse?
Acho que existem pressões culturais e religiosas em certos lugares que têm uma voz muito forte na população, historicamente e ainda hoje. Eu imagino que, no Brasil, com uma população historicamente religiosa e forte presença da Igreja, isso seja um fator significativo.
Outro fator que teve impacto em todo lugar, não só no Brasil, é que, cem anos atrás, como alguém morria e como era cuidado nesse processo era completamente diferente de hoje. A medicina moderna tirou a morte da comunidade, das famílias —onde ela costumava acontecer o tempo todo—, e a levou para dentro de hospitais. Isso fez coisas tremendamente boas: salvou vidas, curou doenças. Mas, ao mesmo tempo, isso nos deixou muito menos familiarizados com a morte, porque não a vemos mais em casa como antes.
Tradições e rituais em torno da morte mudaram. Essa ignorância sobre o próprio evento nos deixa com medo —um medo muito maior de como podemos morrer, porque não sabemos mais como é morrer. Cem anos atrás, as pessoas sabiam, porque viam o avô sendo cuidado em casa. Hoje acontece num prédio cheio de máquinas, atrás de portas fechadas, e não sabemos bem o que é aquilo.
O Canadá é um dos poucos países que permitem tanto o suicídio assistido quanto a eutanásia. Por que o país escolheu esse caminho mais amplo?
Parece muito claro que o motivo é que aprendemos com quem veio antes —observamos o que aconteceu na Holanda, nos Estados Unidos. Nos EUA, é tudo autoadministrado, e muitos países copiaram esse modelo. Mas isso limita quem pode receber o cuidado, porque, para autoadministrar, você precisa conseguir segurar o copo, engolir, digerir. Muita gente perto do fim da vida, especialmente com câncer, tem algo que bloqueia esse sistema, mesmo cumprindo todos os outros critérios.
Muita gente no Canadá achou isso claramente discriminatório. Vemos esse aprendizado acontecer também na Austrália e na Nova Zelândia, que emendaram seus modelos depois. O modelo canadense se baseia fortemente no holandês, que tem as duas opções.
Por que a maioria dos pacientes no Canadá, mesmo tendo as duas opções, pede a administração médica?
As pessoas se acostumaram a uma prática que funciona muito bem, 100% controlada e eficaz. Mesmo quando você explica os riscos e benefícios de cada método, os pacientes simplesmente escolhem o que é mais rápido e garantido. Dito isso, há um punhado de pessoas que querem muito ter controle —querem segurar o copo, beber.
Como a maioria dos países que permitem a prática, o Canadá exige que o paciente seja elegível para serviços de saúde financiados pelo governo —na prática, uma exigência de residência. Outros países exigem que o médico já acompanhe o paciente há tempo. A senhora concorda com esse tipo de restrição?
Não é meu papel definir a lei ou decidir se residentes ou não residentes deveriam ter acesso. Entendo por que o governo canadense fez isso —para impedir que gente do mundo todo venha ao Canadá fazer isso— e acho que faz sentido quando você está começando um programa novo.
Sobre a ideia de que o paciente precise ter uma relação prévia com o médico, seria ideal, mas no Canadá não temos médicos suficientes fazendo esse trabalho, e não é justo penalizar alguém que cumpre todos os critérios, mas cujo médico decidiu objetar. Eu mesma não tenho mais uma prática médica geral, então todos os meus pacientes são novos para mim. Construímos uma relação ao longo do processo, e funciona bem. Então não acho essencial, não. Acho lindo, seria maravilhoso, mas não essencial.
Críticos da morte assistida argumentam que a prática desrespeita a inviolabilidade da vida humana e corrompe o papel do médico como protetor da saúde. O que pensa disso?
Essa é uma pergunta que muitos médicos se fazem antes mesmo de decidir se querem fazer esse trabalho. O conceito de inviolabilidade da vida é mais uma questão moral, pessoal. Mas, do ponto de vista profissional, vejo médicos como pessoas que ajudam pessoas. Muitas vezes não há mais nada a fazer por certos pacientes, e nosso papel, nesse momento, é permanecer presente, não os abandonar.
O trabalho em torno da morte assistida é exatamente isso: ouvimos as histórias das pessoas, exploramos todas as opções disponíveis, e buscamos capacitá-las a tomar a melhor decisão. No Canadá, consideramos a morte assistida como parte da saúde. Não percebo conflito entre esse trabalho e meus deveres profissionais e éticos. Eu durmo bem à noite.
O MAiD é coberto pelo sistema público de saúde, diferentemente de países como Suíça, que cobra milhares de dólares pelo serviço. Ainda assim, há uma cobertura sobre casos de pacientes que recorreram ao MAiD citando falta de acesso à moradia ou suporte social adequado, não apenas doença. A gratuidade do procedimento resolve a desigualdade do acesso?
Só porque uma manchete de mídia diz “homem prefere o MAiD a ficar sem-teto” não significa que esse homem seja elegível ou vá receber o MAiD por esse motivo. Viver na pobreza ou não ter moradia não torna a pessoa elegível, simples assim. Há muita gente distorcendo propositalmente narrativas usadas por opositores. Depois de dez anos, temos dados: todo pedido de MAiD precisa ser reportado federalmente, e temos um relatório anual detalhado.
O que sabemos é que as pessoas que recebem o MAiD no Canadá são menos marginalizadas do que as que não recebem —são as pessoas socioeconomicamente privilegiadas, de longe. Há bons estudos mostrando que, considerando todos os fatores de risco possíveis, são as pessoas privilegiadas que estão recebendo o MAiD.
Isso não significa que não temos um problema no Canadá —temos um problema de alocação de recursos, não há recursos comunitários suficientes para pessoas com deficiência ou que precisam de cuidados paliativos. Mas as pessoas que de fato recebem o MAiD não são essa população. Algumas pessoas diriam até que os vulneráveis na nossa sociedade não sabem sobre o MAiD, ou não conseguem acessá-lo por causa da saúde precária em suas comunidades.
Por que a morte assistida ainda é mais procurada por quem tem mais recursos?
Acho que é uma questão de conhecimento e acesso. Pessoas mais ricas conseguem se defender melhor, têm acesso a recursos que outros lutam para acessar —inclui saúde, educação, encontrar um médico especializado. É a infeliz verdade. Primeiro você precisa saber sobre a possibilidade, depois precisa conseguir acessá-la.
A senhora passou mais de 20 anos como obstetra antes de migrar para o MAiD em 2016. Há alguma semelhança entre os dois trabalhos?
Há muitas semelhanças. Eu amava meu trabalho como obstetra. As pessoas vinham até mim como uma guia informada de um processo essencialmente natural. Para fazer bem esse trabalho, preciso reconhecer que não sou a pessoa mais importante na sala: são a mãe, o bebê e a família. É assim que vejo meu papel: guia.
Isso é igualmente verdadeiro numa morte assistida —cabe a mim ajudá-los nesse evento, facilitá-lo, e depois me retirar respeitosamente para deixá-los ter seu tempo. É essencialmente o mesmo conjunto de habilidades. No meu livro, percebi que comecei a usar a mesma palavra que uso para os partos [“delivery”, em inglês] também para as mortes assistidas. Digo ao meu marido que vou fazer um “delivery”, e ele sabe o que quero dizer, porque não faço mais partos de bebês.
Depois de mais de 300 mortes e mais de uma década de trabalho, há algo que gostaria que as pessoas entendessem sobre estar presente na morte de alguém?
Existe um paradoxo real: quando a vida de alguém está terminando, é sempre triste. Mas, para conversar com alguém sobre por que ela pode querer uma morte assistida, estou conversando sobre como ela quer viver —o que é significativo para ela, o que traz alegria, o que ela perdeu, o que ainda tem. O evento em si, de encerrar a vida de alguém com medicação, não é a parte difícil do que faço. As conversas, a avaliação de elegibilidade, a exploração das opções, isso é a essência do trabalho. É tudo sobre vida e como viver.
No meio de momentos extremamente tristes, testemunhei alguns dos momentos mais extraordinariamente bonitos: expressões de amor, despedidas, um filho agradecendo ao pai por estar presente, um cônjuge de 50 anos dizendo que ama o outro. Quero que as pessoas entendam que a morte assistida é menos sobre morte e mais sobre vida e como viver.
Você optaria pelo MAiD para si mesma, se um dia precisasse?
Não sei. Sinto muita gratidão por viver num país onde a opção existe. Nessa fase da minha vida, tenho tudo pelo que viver —um marido maravilhoso, dois filhos construindo suas vidas. Quero viver o máximo possível. A última coisa que eu quero é encerrar minha vida. Mas já vi gente suficiente em situações de sofrimento tão intolerável que, se fosse eu, ia querer a opção. Não sei se escolheria até estar naquela posição, mas sou especialmente grata por saber que tenho essa opção.
Diria que seu trabalho mudou a forma como você vê tanto a vida quanto a morte?
O que o trabalho mudou foi como vejo os relacionamentos na minha vida. É impossível fazer esse trabalho sem me projetar. Se estou testemunhando alguém morrendo, é impossível não pensar: quem eu gostaria que estivesse ao meu lado? Essa pessoa sabe que é importante para mim? De quem eu gostaria de segurar a mão, e por quê? Vou ligar para minha melhor amiga porque faz três semanas que não falo com ela, e preciso ouvir a voz dela.
Temos essas pessoas essenciais em nossas vidas e frequentemente não damos a elas o devido valor. Esse trabalho me fez entender que esses relacionamentos não têm preço, e preciso alimentá-los, ser explícita sobre isso. Essa é a maior mudança que esse trabalho me trouxe. Não é tanto sobre a vida em si, mas, principalmente, sobre relacionamentos.
Raio-X | Stefanie Green, 57
Médica canadense formada pela Universidade McGill, em Montreal. Atuou por mais de vinte anos como obstetra antes de migrar, em 2016, para a assistência médica para morrer (MAiD), logo após a prática ser legalizada no Canadá. É presidente fundadora da Camap (Associação Canadense de Avaliadores e Provedores de MAiD) e autora do livro “This Is Assisted Dying: A Doctor’s Story of Empowering Patients at the End of Life” (2022), sobre o primeiro ano de sua atuação na área. É consultora médica da Unidade de Supervisão do MAiD do Ministério da Saúde da Colúmbia Britânica e já prestou depoimento como especialista à Câmara dos Comuns e ao Senado do Canadá. É corpo docente clínico das universidades de British Columbia e de Victoria.
Autor: Folha








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