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Nada é mais subestimado que o meio-campo – 30/09/2026 – Marcelo Bechler

Estamos a menos de um mês da escolha do Bola de Ouro da temporada. No páreo, Killyan Mbappé, Lamine Yamal, Messi, Harry Kane, Kvaratskhelia e Rodri como favoritos. Apenas um meio-campista. No futebol que olha cada vez mais para gols e assistências, o meio-campo parece um lugar apenas de passagem. Mas não é. Há um ditado futebolístico que diz que “o jogo se ganha no meio-campo e se decide nas áreas”.

Quando os jogadores foram convocados para a Copa do Mundo, houve debates sobre a escolha de Weverton como terceiro goleiro, mas quase passou batido o fato de não termos meio-campistas criativos e controladores de jogo. Falamos dos atacantes, de Neymar, João Pedro, Igor Thiago, mas não debatemos quem vai decidir se o ataque será rápido ou lento, pela direita, pela esquerda ou pelo centro. E quem decide isso são os meio-campistas.

No novo ciclo, Carlo Ancelotti disse que a Espanha poderia jogar controlando o jogo com a bola por ter tido “sorte” em possuir uma geração de ótimos meias. Não foi sorte, foi um modelo escolhido pelos espanhóis para formar jogadores com as características que eles consideram ideais para jogar. Assim, ganharam duas Copas do Mundo e três Eurocopas nos últimos 18 anos.

No primeiro amistoso contra a Austrália, Ancelotti escalou Bruno Guimarães e Danilo atrás de quatro atacantes: Raphinha, Estêvão, Vinicius e Endrick. O time parecia partido em dois, com lançamentos longos sendo a única forma de conectar o time da defesa com o time do ataque. Na partida seguinte, ao lado dos dois volantes estava Gabriel Bontempo. O santista não chegou a ser o ponto de virada de chave, mas a presença de um jogador a mais ocupando zonas intermediárias deu ao time a capacidade de tocar mais curto, forçar menos passes, construir melhor o jogo e acionar melhor os atacantes.

O Brasil, de fato, não possui jogadores com as características dos espanhóis. No caso deles, até mesmo os zagueiros e os atacantes têm características de meio-campistas. Pau Cubarsi, Eric Garcia, Oyarzabal e Alex Baena poderiam ocupar as posições no meio-campo.

Nós não temos que jogar como a Espanha. Primeiro porque as cópias são sempre piores que o original. Não é porque funcionou para os espanhóis que deveria funcionar para os brasileiros. E segundo porque existem várias formas de jogar, de controlar o jogo e de aproveitar as características principais dos jogadores.

Dois gols do amistoso de terça-feira (29) saíram de jogadas em que o Brasil atraiu o adversário e os meio-campistas foram capazes de vencer a pressão com passes e deslocamentos, para acionar o ataque em velocidade. No terceiro, Bruno Guimarães começou a jogada, de costas para o gol no círculo central, e a terminou na pequena área, 11 segundos depois.

O futebol precisa passar pelos meio-campistas. São eles que vão atrair e desorganizar o sistema defensivo rival. Os atacantes, por melhor que sejam, vão para uma tentativa e erro sem nenhuma vantagem se as jogadas não forem bem construídas.

No Brasil, e aqui falo de futebol e também de todo o restante, tudo é extra-acelerado, a fim de gerar resultados de qualquer jeito. Falta alguém que dê respiro, pausa e sentido ao jogo.

“Correr é para os covardes” é um mantra do futebol espanhol ainda dos anos 70.

Não digo que nós não devamos correr, mas parar para pensar um pouco também ajuda.


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Autor: Folha

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