
Ao meu redor, todos estão empolgados. Um fala de “Dom Casmurro”. Seus olhos brilham de admiração. De repente, tem início uma pequena discussão: “Dom Casmurro” ou “Memórias Póstumas”? Qual é melhor? “Esaú e Jacó!”, diz alguém querendo ser o cultão diferentão. Não, porque os contos são melhores do que os romances. “Missa do Galo”. “O Alienista”. Aquele outro lá, da agulha. E eu no meu canto, pensando se digo ou não digo a verdade: não gosto de Machado de Assis.
Não gosto, ué! Por acaso é pecado mortal? Crime de lesa-pátria? Atestado de ignorância? Que seja. Não gosto e tenho meus motivos. A começar pelo cinismo. Aquela visão amarga da vida. Argh. Em Machado de Assis nada presta. Ninguém presta. Não há um só momento de contemplação. É tudo cachola adentro, o que reconheço que encontra certa ressonância num mundo autocentrado. Egoísta mesmo. Mas poxa. É uma escolha ficar chafurdando nisso, só nisso, sem expressar um mínimo de gratidão.
Genial!, brilhante!, maravilhoso!, sensacional!, formidável!, esplêndido! e etc.
E, já que estou dizendo, digo mais: não gosto do estilo afetado nem da pretensão explícita de imortalidade. Oh, olha que linda essa frase cortante. Veja que observação arguta. Repare na crítica ácida ao seu tempo. Oh, venham todos ler, admirar e principalmente aplaudir a genialidade do Bruxo do Cosme Velho. Não gosto da aura e não perca seu tempo me passando sermão: tampouco gosto da unanimidade. Aliás, mais do que o cinismo e o estilo, me causa repulsa a unanimidade. Essa coisa de elogiar sem pensar nem ler, só porque pega mal desgostar ou então porque Machado de Assis era brasileiro e negro e epilético e qualquer outra coisa que justifique as hipérboles em torno de uma obra que só destrói.
Machado de Assis que não entendia o amor, era incapaz de conceber e muito menos de expressar o amor, e em cujo universo não cabem nem a caridade nem a Graça nem a misericórdia. Nem a Beleza, no sentido santo do termo. Um escritor amargo, cinza e cheio de arestas, dado mais a reparar no cisco do olho alheio do que na trave de seus próprios olhos. Já tentei gostar, já menti que gostava e posso até reconhecer eventuais qualidades aqui e ali. Mas no geral não gosto. Agora, claro que não sou nem louco de dizer uma coisa dessas. Para quê? Eu não! Por isso vou ficar aqui na minha enquanto os amigos brindam e gritam que Machado de Assis, ah, Machado de Assis é genial!, brilhante!, maravilhoso!, sensacional!, formidável!, esplêndido! e etc. Principalmente etc.
Autor: Gazeta do Povo








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