
Vi este fim de semana com meu filho a nova série da BBC “O Senhor das Moscas”, baseada no livro homônimo de William Golding, que li faz algum tempo. A série foi bem fiel ao livro, pelo que me recordo. E a moral da história segue intacta: cuidado com a natureza humana! Ela precisa ser domesticada, o homem deve ser civilizado, mas a besta que vive em seu interior estará sempre lá, pronta para assumir o controle.
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Após a queda de um avião, um grupo de garotos fica preso em uma ilha tropical no Oceano Pacífico, no início da década de 1950. Ralph, um menino bom, tenta liderar os garotos, com a ajuda do “intelectual” Piggy, que sugere regras para manter a ordem. No entanto, Jack inicia uma rebelião, e a sociedade improvisada que eles formaram começa a desmoronar. O tribalismo fala mais alto. Comentei sobre o livro em meu Esquerda Caviar:
O mal existe. O ser humano, ao contrário do que quer acreditar a esquerda caviar, não nasce bonzinho, mas com inclinação para a prática da violência. Nelson Rodrigues resumiu com perfeição: “Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha”.
Em “O senhor das moscas”, William Golding retrata com realismo essa natureza humana, presente na mais tenra idade. Qualquer pai sabe que seu filho, desde muito cedo, gosta de apelar ao uso da força para obter aquilo que deseja. Civilizar é impor limites a esse impulso natural, que sempre, no entanto, estará lá, latente, como uma besta à espreita, aguardando uma oportunidade para emergir com total energia.
Quem não quer se dar ao trabalho de ler, ao menos veja o filme “O anjo malvado”, com Macaulay Culkin, de 1993. É ficção, claro, mas retrata algo factível: uma criança pode ser, no fundo e desde cedo, um pequeno monstrinho, capaz das maiores atrocidades. Mas a esquerda caviar politicamente correta não aceita isso, não quer encarar a maldade existente nos seres humanos.
O tribalismo não permite contestação, divergência ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente máquina de guerra, mas jamais para construir uma civilização que mereça tal nome
Ou seja, não nascemos “puros” ou “bons”, tampouco a culpa de nossa violência é da “sociedade”, que é formada, pasmem!, pelos próprios seres humanos que supostamente nasceram bons. Colocar a culpa da violência numa abstração como a sociedade é retirá-la de indivíduos de carne e osso, responsáveis por suas atitudes.
Civilizar o homem, porém, não é tarefa trivial. Afinal, o “chamado da tribo” é muito forte. O que nos remete ao excelente livro de Mario Vargas Llosa justamente com esse título, que resume as ideias de grandes pensadores como Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Revel. O denominador comum que Vargas Llosa encontrou nesses autores é sua rejeição ao tribalismo, um chamado natural, uma vez que se trata de uma paixão atávica essa busca por pertencimento a um grupo coeso.
O liberal clássico luta contra o coletivismo tribal desde sempre, e não é trivial compreender as vantagens de um sistema mais impessoal como o livre mercado, calcado em regras isonômicas, pois não é algo intuitivo. A tendência natural é defender a “coisa nossa”, que leva ao patrimonialismo, que enxerga no estado uma extensão da família ou do seu grupo. O “nós contra eles” é tentador demais para ser ignorado por abstrações.
Sou grande admirador de Vargas Llosa, não só do romancista, mas também do liberal em política. Mas vale ressaltar as diferenças essenciais: enquanto ele adota uma visão de um liberalismo mais progressista e cosmopolita, às vezes quase flertando com uma social-democracia ao estilo tucano, eu me considero um liberal com viés conservador, justamente por rejeitar a visão racionalista demais dos que ignoram o legado e a importância das tradições morais e religiosas, além do saudável patriotismo – que jamais deve ser confundido com o nacionalismo tacanho e ufanista.
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Em que pesem diferenças importantes, o que nos une é mais forte: Vargas Llosa absorveu desses pensadores liberais a humildade necessária para não cair em tentações utópicas revolucionárias, preferindo sempre o gradualismo reformista e a democracia que, com todos os seus defeitos, tem como maior virtude evitar justamente o derramamento de sangue em trocas violentas de grupos no poder.
Sua aversão ao coletivismo é por mim compartilhada. Com Sir Karl Popper, talvez sua maior influência, o escritor peruano rejeita a irracionalidade do ser humano primitivo “que descansa no fundo mais secreto de todos os civilizados, que nunca superaram totalmente a saudade daquele mundo tradicional – a tribo – em que o homem ainda era parte inseparável da coletividade, subordinado ao feiticeiro ou ao cacique todo-poderosos que tomavam todas as decisões por ele, e nela se sentia seguro, livre de responsabilidades, submetido, como o animal de manada, no rebanho, ou o ser humano em uma turma ou torcida, adormecido entre os que falavam a mesma língua, adoravam os mesmos deuses e praticavam os mesmos costumes, e odiando o outro, o diferente, que podia ser responsabilizado por todas as calamidades que assolavam a tribo”.
Em Tribe: On Homecoming and Belonging, Sebastian Junger, correspondente de guerra, mostra como muitos militares acabaram sentindo falta dos anos de batalha, pois ali, apesar de toda a dor e violência, havia ao menos um sentimento forte de pertencimento a algo maior. Não por acaso virtudes – e vícios – destacam-se em momentos como estes. A coragem que desperta em alguns, com um propósito de “bando”, é algo heroico e conhecido. Numa tribo, estamos dispostos a dividir mais, compartilhar, algo que as sociedades modernas impessoais dificultam – e o estado é péssimo substituto para isso. Não quer dizer, naturalmente, que seja desejável retornar ao tribalismo. Mas é recomendável assumir que algo se perdeu no processo, que existe uma troca aqui, que o progresso civilizacional traz um custo.
Por fim, retorno à humildade, característica fundamental do liberalismo. Vargas Llosa resume bem: “Entre os liberais, como demonstram aqueles que figuram nestas páginas, com muita frequência há mais discrepâncias que coincidências. O liberalismo é uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica, a partir de um corpo pequeno, mas inequívoco, de convicções”.
Jack, o líder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissidência. Chegaram a matar Simon a pauladas, e Piggy veio a óbito depois também. O tribalismo não permite contestação, divergência ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente máquina de guerra, mas jamais para construir uma civilização que mereça tal nome.
Autor: Gazeta do Povo








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