O conteúdo audiovisual para crianças não acabou. Ele apenas migrou dos canais de TV para a tela do computador ou do celular. Sem um horário fixo de exibição e longe da regulação do setor de radiofusão, essa nova forma de assistir conteúdo infantil entrega mais uma camada para o trabalho invisível do cuidado: a curadoria de conteúdo.
E são os pais, que cresceram com horário certo para assistir desenhos, os responsáveis por definir o que os filhos podem ou não assistir no streaming. É o caso de Bianca Pereira, 32, mãe de Benício, 5, e Miguel cinco meses, que optou por não deixar a escolha de conteúdos nas mãos dos algoritmos. “Sou eu quem escolhe”, afirma.
Bianca usa sua própria experiência como termômetro e mostra para o filho conteúdos vistos por ela quando criança. “Eu uso a minha própria infância como referência”, afirma. Mesmo sem lembrar de tudo que assistia, ela repassa as memórias positivas para o filho.
Na casa de Bianca, “Ursinho Pooh” e “Toy Story” já passaram de mãe para filho. São filmes que ela considera seguros por terem um tema tranquilo. Além disso, a mãe critica remakes de obras infantis por serem visualmente muito realistas, o que, segundo ela, pode ser pesado para os pequenos.
Uma escolha por conteúdos antigos pode ser uma opção, segundo a psicóloga Ana Carolina Sodré, especialista em infância e família. “Um ponto positivo dessas animações era respeitar mais o tempo da pausa sináptica, o tempo de um neurônio passar uma informação a outro neurônio, ou o conteúdo ser integrado pelo córtex pré-frontal”, afirma
Bianca costuma assistir aos lançamentos para decidir se é indicado para seus filhos. “Ele [Benício] ama heróis, então eu deixo assistir sempre considerando a idade dele”, disse. Porém, a experiência pessoal nem sempre é certeza de sucesso ou uma caminhada tranquila. Foi o que a mãe percebeu ao apresentar o filme “O Grinch“, para Benício.
No entendimento da mãe, a criança era madura o suficiente para acompanhar a atração sem percalços, mas ele passou a ter pesadelos com a história e parou de deixá-lo assistir. “Às vezes uma coisa que parece boba para a gente impacta muito para a criança”, afirma.
Ana Carolina, que tem dois filhos, já caiu na armadilha de usar apenas a sua experiência pessoal para definir as atrações assistidas pelos filhos. Mas, não deu certo. Como acreditava que desenhos antigos eram menos estimulantes, sugeriu outros que continham palavrões.
A psicóloga diz que é preciso que as famílias fiquem atentas também para a maneira como os filhos assistem o conteúdo. Para ela, a melhor escolha é sempre a televisão em vez de navegar por uma plataforma de streaming, por exemplo.
Além disso, embora não exista mais um horário fixo para assistir os conteúdos, o melhor, segundo Ana Carolina, é manter uma rotina. Assistir filmes antes de dormir, por exemplo, qualquer que seja, não é aconselhável.
Benício, o filho de Bianca, já entendeu como funciona a rotina em sua casa. Primeiro banho, depois jantar e, por último, o desenho. “Ele sabe mexer no controle remoto, mesmo assim sempre pergunta se pode colocar no desenho antes de mexer”, afirma a mãe.
Mais próximo da hora de deitar-se, a criança deve fazer como o adulto, procurar uma atividade de baixo estímulo, uma leitura, por exemplo.
Ana Carolina esclarece que a alta estimulação afeta o sistema límbico, definido por ela como o centro das emoções, afeto e memória, além dos instintos básicos de sobrevivência e reflexos.
Para saber se um desenho está na categoria de alto estímulo, diz a psicóloga, basta identificar se os cortes de imagem ou mudanças de ação ocorrem num período superior a três segundos. Isso, segundo Ana Carolina, é um sinal de baixo estímulo.
Outra dica que ela dá para os pacientes e aplica também com os filhos é optar por desenhos que tenham uma narrativa definida, com começo meio e fim. Desta forma, a criança fica estimulada a compreender a história, desenvolvendo também habilidades cerebrais.
Quando uma criança se acostuma com um desenho que já tem uma fórmula, ela entende o que vai acontecer na atração, mas, ao mesmo tempo, passa a imaginar soluções possíveis para os problemas, o que desenvolve a capacidade de percepção e libera uma espécie de dopamina boa.
Bianca diz que as telas, se forem usadas com curadoria e cuidado, podem não ser vilãs. “Tem plataformas que meu filho não conhece e vai demorar para conhecer”, afirma.
Autor: Folha








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