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Seis balas e uma cúpula – Broadcast

Pedro Lima

Imagine participar de uma cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), cujo objetivo é discutir segurança internacional, e voltar para casa com um revólver Magnum .357 gravado com seu nome e seis munições. Foi esse o presente distribuído pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, aos chefes de Estado e de governo que participaram do encontro em Ancara, entre os dias 7b e 8 de julho.

A “lembrancinha” tinha uma intenção clara: promover a indústria bélica turca, hoje um dos principais instrumentos da projeção internacional de Ancara. Mas o simbolismo do presente acabou indo muito além do marketing militar. Afinal, poucos encontros recentes reuniram tantos elementos de tensão quanto essa cúpula.

Logo na chegada, Donald Trump voltou a insistir que os Estados Unidos deveriam assumir o controle da Groenlândia, pressionou novamente os países da Otan a ampliarem seus gastos com defesa e chegou a afirmar que a aliança poderia quadruplicar sua produção de armamentos.

Enquanto isso, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, fazia o contraponto. Disse que a aliança está “mais forte” com Trump, atribuiu ao presidente americano o mérito por impulsionar o aumento dos gastos militares e reforçou a necessidade de ampliar a presença da organização no Ártico diante da atuação de Rússia e China.

Durante a reunião, a imprensa internacional revelou que a Otan discutia a possibilidade de abandonar seu modelo de cúpulas anuais em 2027. Um dos motivos seria justamente evitar novos atritos com Trump, além de reduzir a exposição do país anfitrião, que figura entre os membros que menos investem em defesa. A ideia, por si só, já mostra o grau de preocupação da aliança em administrar a relação com Washington.

Mas os bastidores sugeriam um ambiente menos tranquilo do que o discurso oficial.

Dois dias depois da cúpula, a imprevisibilidade voltou a se impor. Apesar dos esforços de mediação do Catar e da expectativa de continuidade das negociações nucleares, Trump anunciou que o cessar-fogo com o Irã havia “acabado.

O economista e Nobel Paul Krugman interpreta que os aliados europeus deixaram de acreditar que conseguirão trazer de volta “a América que conheciam”. Em vez de reagir a cada nova declaração do presidente americano, passaram a tratar sua imprevisibilidade como uma condição permanente da política internacional.

Segundo Krugman, essa mudança de percepção vem acelerando um processo silencioso de “desamericanização”. Países europeus ampliam investimentos em defesa, estimulam empresas locais de tecnologia, buscam reduzir a dependência de infraestrutura digital americana e discutem alternativas em áreas que, por décadas, dependeram quase exclusivamente dos Estados Unidos.

O destino dos revólveres talvez seja o melhor retrato da cúpula. Alguns líderes deixaram as armas na Turquia por restrições legais, outros as entregaram à polícia ou decidiram doá-las a museus militares. Pensado para exibir a força da indústria bélica turca, o presente de Erdogan acabou simbolizando uma Otan que fala em unidade e reforço da defesa, mas que também busca se adaptar a um cenário em que boa parte da incerteza vem de dentro da própria aliança.

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