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Sistema que cruza dados do SUS e de farmácias prevê surtos – 01/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

A pandemia de covid-19 e os alertas sobre ameaças virais como Ebola, Nipah e Hantavírus reforçam uma preocupação global e recorrente: como saberemos quando uma nova doença começará a se espalhar? No Brasil, onde surtos de doenças como dengue, chikungunya e outras infecções são frequentes, essa capacidade pode ser decisiva para reduzir impactos sobre a população e os serviços de saúde.

Em um estudo recente, avaliamos o desempenho do Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico (ÆSOP), atualmente em implementação pelo Ministério da Saúde. O sistema utiliza dados da Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde e de vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP), como descongestionantes nasais, para identificar sinais precoces de surtos.

O estudo, publicado na revista npj Digital Public Health, mostrou que o sistema antecipou aumentos de hospitalizações por doenças respiratórias em até três semanas em cerca de 60% dos episódios, além de identificar casos leves antes que seu impacto fosse visível nos hospitais.

Sintomas comuns que podem confundir

Mapear os primeiros sinais de transmissão é um grande desafio da saúde pública, mas ganhar dias ou semanas de vantagem pode fazer muita diferença para organizar a assistência, direcionar investigações epidemiológicas e reduzir o impacto de um surto.

Essa não é, no entanto, uma missão simples, já que surtos raramente começam de forma evidente.

Nos seus primeiros momentos, uma doença emergente costuma se parecer com outras já conhecidas. Os sintomas iniciais, como febre, tosse, dor no corpo ou mal-estar, por exemplo, são comuns a diversas infecções.

Foi o que ocorreu durante surtos de Ebola em países da África Ocidental, vírus responsável por uma taxa média de letalidade de 25% a 90%. Um estudo estimou que, caso 60% dos infectados recebessem diagnóstico em até um dia após o surgimento dos sintomas, em contraste com a média de cinco dias, o índice de contaminação viral despencaria de 80% para quase zero.

Capacidade real de antecipação

O principal diferencial do ÆSOP é detectar casos leves antes que o aumento da transmissão se reflita nas hospitalizações, capacidade confirmada pelo estudo.

Dados de vendas de medicamentos isentos de prescrição emitiram sinais entre uma e três semanas antes das hospitalizações em 57% dos 746 episódios, enquanto dados da APS anteciparam 60% dos aumentos, demonstrando que ambas as fontes identificaram surtos antes de seu impacto nos hospitais.

Na prática, antecipar um surto em até três semanas, como o estudo aponta ser possível, fornece um tempo valioso para direcionar investigações epidemiológicas, ampliar a coleta de amostras e preparar a rede assistencial. Isso inclui o planejamento de leitos, equipes e insumos, reduzindo o risco de colapso do sistema de saúde.

Esse tempo é decisivo para interromper cadeias de transmissão e orientar medidas de contenção, o que explica o crescente interesse em estratégias como a vigilância sindrômica, capaz de detectar surtos antes da confirmação laboratorial.

O fio da meada

A vigilância sindrômica é uma estratégia utilizada por autoridades de saúde para identificar precocemente possíveis surtos por meio do monitoramento de padrões de sintomas, como síndromes febris, respiratórias, diarreicas e arboviroses.

Diferentemente dos sistemas baseados apenas na confirmação laboratorial, essa abordagem prioriza a rapidez e a sensibilidade na identificação de sinais iniciais de circulação de doenças.

Esses sinais podem ser captados em diferentes fontes de informação. Um aumento repentino na procura por atendimento devido a febre e tosse em unidades básicas de saúde, por exemplo, pode indicar o início de um surto respiratório. O sistema ÆSOP integra dados da Atenção Primária à Saúde (APS), registrados no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), e informações sobre vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP) adquiridos da IQVIA, uma multinacional especializada em dados, tecnologia e pesquisa para o setor de saúde.

Um país, múltiplos cenários

O desempenho do ÆSOP variou entre regiões, refletindo desigualdades na organização dos serviços de saúde e acesso à assistência, mas em cerca de três quartos do Brasil pelo menos uma fonte apresentou boa performance, mostrando que diferentes sistemas de vigilância precisam atuar de forma complementar.

O estudo identificou períodos de aumento simultâneo de atendimentos na APS e vendas de MIP sem crescimento de hospitalizações, sugerindo surtos de casos leves. Detectar esses casos é fundamental, pois impactam o sistema de saúde, a economia local e podem representar apresentação inicial de doenças potencialmente graves, como a Zika.

Como nos preparar melhor para os próximos surtos

Novos surtos continuarão surgindo, e a questão central é quão rapidamente conseguiremos identificá-los. Dados da APS e de vendas de MIP oferecem oportunidade de enxergar sinais invisíveis para sistemas tradicionais de monitoramento.

O ÆSOP está em implementação pelo Ministério da Saúde, oferecendo a possibilidade de desencadear intervenções antes que surtos se tornem visíveis para sistemas convencionais.

Quando combinadas com informações climáticas, ambientais, socioeconômicas e de mobilidade humana, essas fontes podem fortalecer sistemas de alerta precoce capazes de fornecer tempo precioso para a organização dos serviços de saúde, a realização de investigações epidemiológicas e a adoção de medidas de controle.

Em um mundo cada vez mais conectado, ganhar algumas semanas pode fazer toda a diferença entre conter um surto local ou enfrentar uma crise de grandes proporções.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autor: Folha

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