A dívida bruta do governo central pode continuar em ascensão, alcançando o pico de 89,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2030, em razão do descompasso entre o custo dos juros e o crescimento econômico do país. A estimativa consta na 8º Relatório de Riscos Fiscais da União (RRFU), divulgado nesta terça-feira (3), pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) do Ministério da Fazenda.
De acordo com o documento, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) deve encerrar 2026 em 83,7% do PIB — um avanço de 5,1 pontos percentuais em comparação ao final de 2025. A partir de 2030, o cenário indica uma reversão gradual, recuando para 86,3% do PIB ao final do horizonte de projeção, em 2036.
A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) segue dinâmica semelhante: sobe de 71% em 2026 até o teto de 78,4% do PIB em 2030, recuando para 75,6% em 2036. O principal motor por trás do aumento do endividamento público no médio prazo é a conta de juros nominais. Entre 2026 e 2030, os juros devem adicionar, em média, 8,4 pontos percentuais do PIB ao ano à DBGG.
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Em contrapartida, o crescimento da economia atua amortecendo parte desse avanço: o avanço do PIB nominal deve abater 6,0 pontos percentuais anuais da relação dívida/PIB — sendo 2,1 p.p. pelo crescimento do PIB real e 3,9 p.p. pelo efeito do deflator.
Segundo o Tesouro, uma elevação de 1 ponto percentual ao ano na taxa Selic frente ao cenário base representaria um impacto fiscal acumulado de R$ 476 bilhões em despesas com juros entre 2027 e 2030.
O relatório enfatiza que uma trajetória sustentada de diminuição da relação entre a dívida e o PIB depende da continuidade de reformas estruturais voltadas à melhoria do ambiente de negócios e ao aumento da produtividade e do crescimento, com destaque para medidas que promovam a consolidação fiscal.
Com cenário adverso, projeção da dívida chega a 103,4% do PIB
O relatório inclui simulações de estresse que combinam variações no PIB, nas taxas de juros e no resultado primário. Nas projeções com choques combinados (juros mais altos, menor crescimento e primário desfavorável), a DBGG alcançaria patamares superiores a 100% do PIB já a partir de 2033.
Em outro cenário, o Tesouro estima que, se o país enfrentar simultaneamente menor crescimento econômico (-0,5 p.p. ao ano), juros mais altos (+1 p.p. ao ano) e déficits primários (-0,5% do PIB ao ano), a dívida bruta pode saltar para 103,4% do PIB em 2036, situando-se 17,1 pontos percentuais acima do cenário central.
Por outro lado, uma melhora fiscal combinada a juros menores e aceleração da atividade econômica poderia reduzir a dívida para 71,3% do PIB no mesmo período.
Riscos fiscais
Além da dinâmica macroeconômica, a exposição total da União a riscos fiscais específicos atingiu R$ 4,87 trilhões em 2025. Entre os principais vetores de incerteza monitorados pela equipe econômica estão:
- Passivos judiciais: o estoque de ações judiciais contra o governo (riscos provável e possível) atingiu R$ 2,18 trilhões em junho de 2026. A despesa efetiva com perdas judiciais e precatórios passou de 2,5% das despesas primárias em 2017 para uma projeção de 4,6% em 2026 (R$ 121,3 bilhões);
- Estados e municípios: inadimplência e garantias de empréstimos concedidos a estados e municípios totalizaram R$ 1,21 trilhão até junho de 2026. A recente limitação ao pagamento de precatórios por estados e municípios (EC nº 136/2025) alivia o curto prazo, mas amplia o risco de a União ter de socorrer entes federativos no futuro.
- Eventos climáticos e ambientais: o documento reforça que desastres naturais e secas aumentam a necessidade de créditos extraordinários e gastos de reconstrução de infraestrutura, com impactos fiscais adicionais de difícil previsibilidade.
Autor: Gazeta do Povo








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