Julie Frumin, terapeuta familiar no sul da Califórnia, acordou na quarta-feira (26) com uma mensagem animada da sogra. A Meta havia concordado em pagar US$ 17,1 bilhões (R$ 88,3 bilhões) e fazer mudanças significativas para encerrar ações que acusavam seus produtos de serem viciantes e de colocar crianças em risco.
Frumin ficou empolgada e contou rapidamente aos filhos, Ryan, 12, e Elyse, 9. A família começou a conversar sobre o assunto durante o café da manhã. As crianças imediatamente se fixaram no que lhes pareceu um número enorme, US$ 17,1 bilhões (R$ 88,3 bilhões), e o filho perguntou: “Quanto dinheiro eles têm?”
Frumin disse que respondeu: “Não sei, mas isso não é tanto para eles.”
A conversa resume a maneira como alguns pais estão reagindo ao acordo com a Meta: à primeira vista, ele parece representar um avanço enorme, mas, após uma reflexão mais cuidadosa, suscita muitas dúvidas e a percepção de que é preciso fazer mais para proteger os jovens.
“Precisamos de legislação”, disse Frumin. Em seu consultório, ela afirma ter visto jovens desenvolverem o que descreve como “vício” em aparelhos eletrônicos. “Precisamos que esses produtos sejam seguros desde o projeto.”
Em todo o país, pais disseram sentir algum reconhecimento e uma sensação de vitória. Mas também demonstraram incerteza sobre como o acordo será aplicado e ceticismo de que muita coisa vá mudar. Em vários casos, o resultado pareceu insuficiente e tardio demais.
É o caso de Luke e Brittney Bird, de Kronenwetter, no Wisconsin. O filho do casal, Bradyn, 15, morreu por suicídio em 2025, horas depois de ser alvo de um golpe sexual no Facebook, segundo a família.
“Nenhum pai ou mãe de uma criança vítima de algo que aconteceu nas redes sociais se importa com quanto dinheiro eles vão acabar recebendo”, disse Brittney Bird, 37. “Nós nos importamos porque temos um filho, e não temos mais. Nada conserta isso.”
Luke Bird, 46, também descreveu o acordo mais amplo como uma “pequena vitória” que tem potencial para provocar uma “grande mudança”.
A explosão do uso de redes sociais e dispositivos móveis nos últimos 15 anos coincidiu com um aumento nos casos de depressão, ansiedade e outros problemas de saúde mental entre os jovens. A ciência sobre se as redes sociais causam diretamente esses problemas é complexa, mas especialistas afirmam que, no mínimo, muitos adolescentes têm optado com frequência por passar longos períodos diante das telas em vez de adotar comportamentos mais saudáveis, como dormir e praticar exercícios.
Empresas de tecnologia como a Meta já haviam argumentado que reforçaram as medidas de proteção aos usuários jovens e que a Lei de Decência nas Comunicações as protegia de responsabilidade pelo conteúdo publicado por seus usuários. Na quarta-feira (26), o diretor jurídico da Meta disse que a empresa esperava estabelecer “um novo padrão para o setor” que fosse seguido por outras companhias.
O acordo distribui o dinheiro —uma fração do valor total de US$ 1,48 trilhão (R$ 7,64 trilhões) da Meta—entre os 47 estados que processaram a empresa, além do Distrito de Columbia e de vários territórios americanos. Empresas de tecnologia como a Meta já haviam argumentado que reforçaram as medidas de proteção aos usuários jovens e que a Lei de Decência nas Comunicações as protegia de responsabilidade pelo conteúdo publicado por seus usuários.
Além disso, a Meta se comprometeu, entre outras mudanças, a limitar o uso de suas plataformas por adolescentes, remover determinados conteúdos que enfatizam comparações sociais, como a contagem de “curtidas”, e bloquear o uso de “filtros de maquiagem extremos”.
O acordo com a Meta deixou alguns pais, entre eles Eric Schlemann, 48, que tem um filho pré-adolescente e dois adolescentes, se perguntando como as restrições de idade e outros limites serão aplicados. A empresa não detalhou seus planos. No fim, disse Schlemann, cabe aos pais estabelecer limites para os filhos.
“Há muitos pais que não prestam atenção ao que os filhos estão fazendo nas redes sociais, então é um dilema”, disse Schlemann.
Ele estava reunido na tarde de quarta-feira (26) com outros pais em um complexo de campos de futebol e softbol em Germantown, Ohio. Outro pai da região, Todd Peck, 46, que tem dois filhos, de 11 e 15 anos, disse esperar que a Meta acabe descobrindo uma maneira de conciliar as restrições com suas necessidades empresariais.
“As empresas de redes sociais são como crianças; elas vão encontrar uma maneira de conseguir o que querem. Vão encontrar formas de testar os limites e contorná-los”, disse Peck.
Executivos da Meta disseram que uma única empresa não pode controlar o comportamento dos jovens. Em uma publicação em seu blog na quarta-feira (26), o diretor jurídico da Meta escreveu que “essa estrutura só funcionará se todos os nossos pares se juntarem a nós”, acrescentando: “Como os adolescentes transitam facilmente entre dezenas de aplicativos, precisamos de uma solução para todo o setor.”
Em resposta ao acordo, Matthew Mitchell, consultor de liderança em Des Moines e pai de três filhos, de 12, 16 e 18 anos, disse que o que é necessário, em última instância, é um sistema regulatório semelhante ao que fiscaliza os padrões de segurança dos automóveis.
“Se eles concordaram em pagar US$ 17,1 bilhões (R$ 88,3 bilhões), parte de mim acredita que acham que estão saindo barato”, disse ele na noite de quarta-feira, acrescentando que as famílias não têm chance contra “algumas das organizações mais poderosas que o mundo já viu”.
Mitchell, 48, disse que o uso das redes sociais é “uma conversa constante” com seus filhos e acrescentou: “Todos eles estão enfrentando um sistema projetado para capturar e prender sua atenção.”
“Como pais, sempre nos dizem para entrar nesses espaços digitais com nossos filhos, estar presentes com eles, estabelecer limites melhores, e nós certamente devemos fazer isso”, disse. “Mas tenho sentido que estão me pedindo e me obrigando a enfrentar esses sistemas sofisticados e empresas financiadas com bilhões de dólares, uma criança de cada vez, um dia de cada vez, e estamos em desvantagem.”
Autor: Folha








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