
A empresa de inteligência artificial Anthropic – criadora do Claude – se curvou às exigências dos burocratas da União Europeia e vai incluir uma “marca d’água” nos textos produzidos por seus sistemas. Essa marca é feita através do uso de combinações de palavras que não são perceptíveis pelo usuário, mas podem ser detectadas por sistemas. Ou seja: qualquer pessoa que use IA para produzir, ainda que parcialmente, um texto, estará sujeita a ter esse texto flagrado como “escrito por IA”.
Isso pode gerar repercussões graves. Recentemente, autores prestes a serem publicados por importantes editoras no exterior tiveram livros retirados de publicação ou contratos editoriais desfeitos após suspeitas de uso de IA. O romance Shy Girl, de Mia Ballard, teve a edição americana cancelada e a britânica descontinuada após suspeitas de uso de IA, embora a autora tenha negado ter feito isso. Mais recentemente, a publicação do romance de Jerry Falade foi cancelada após dúvidas sobre o processo de escrita. Ele também negou ter usado IA.
Mas que diferença faz se o texto foi produzido ou não por IA?
Em alguns contextos, é essencial que o texto tenha sido 100% produzido por aquele que diz ser o autor. Esse é, evidentemente, o caso de processos de avaliação como provas em escolas e universidades, dissertações, teses, concursos públicos e competições literárias. Pode haver também situações em que isso seja uma exigência contratual ou legal.
Se o homem comum usa a IA para se comunicar melhor, é preciso que isso seja denunciado e transformado em motivo de vergonha.
Mas, na maioria das outras situações, não está claro por que o uso de IA deveria ser considerado um recurso ilegítimo, a ponto de a União Europeia exigir que textos assim produzidos sejam identificáveis por marca d’água.
Primeiro, precisamos admitir que alguns textos produzidos por IA já são melhores do que os textos produzidos pela maioria das pessoas. Não estou comparando IA com escritores profissionais ou grandes nomes da literatura. Estou falando do cidadão comum da maioria dos países, do usuário médio de redes sociais. Basta ler postagens nas redes para comprovar isso.
Se a pessoa não consegue escrever bem, e pode usar a IA para produzir textos de qualidade superior, por que ela deveria ser punida por isso? Já ouvi dizer que “se a pessoa ficar usando IA, ela nunca vai aprender a escrever bem”. A afirmação não faz sentido. Não é a IA que impede as pessoas de aprenderem a escrever. Por que essas pessoas deveriam ser privadas de um instrumento que lhes permite produzir textos melhores?
Para muita gente, a IA se tornou essencial para escrever. Não compreendo por que deveríamos negar a elas essa ferramenta. Sob um certo ponto de vista, o uso da IA não é diferente do uso de um processador de texto com recursos de correção gramatical e ortográfica. O uso de uma ferramenta de IA também não é substancialmente diferente do uso, por exemplo, de um dicionário de sinônimos.
Identificar o uso de IA é relevante apenas para certas categorias de texto. Para outras, isso não tem importância alguma.
Se alguém usa IA para escrever um e-mail, um conto ou uma postagem em uma rede social, não há necessidade de forçar que isso seja explicitamente declarado ou possa ser identificado.
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Se os sistemas de IA conseguirem escrever melhor do que os melhores escritores, quem ganha são os leitores. Em obras literárias, o que importa é ter acesso a textos e livros bem escritos, concebidos e estruturados com riqueza, elegância e estilo, que permitam ao leitor mergulhar no sonho lúcido da boa literatura. Se a IA puder fazer isso, por que não?
Mas os burocratas mundiais, liderados pelos europeus, resolveram declarar guerra à IA. Isso faz parte da obsessão por controle que caracteriza o Estado moderno. É também uma reação ao potencial de transferência de poder da tecnologia, que dá voz ao cidadão comum e repercute essa voz em todo o mundo. Imagine se esse cidadão tiver acesso a ferramentas que tornam sua voz muito mais poderosa e efetiva. O burocrata precisa restringir o cidadão às suas limitações naturais. Se o homem comum usa a IA para se comunicar melhor, é preciso que isso seja denunciado e transformado em motivo de vergonha.
Não custa lembrar que o Estado regulador da Inteligência Artificial é o mesmo que possibilitou a ascensão de Jason Arday, no mais escandaloso caso de fraude acadêmica da história recente.
É espantoso que as empresas se curvem a essa obsessão burocrática por controle.
Que vergonha, Anthropic.
Autor: Gazeta do Povo








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