
Mais de dois milhões de pessoas viram o Oasis voltar aos palcos em 2025, 16 anos depois de a banda terminar com uma briga entre Liam e Noel Gallagher. A turnê, que passou por 14 países em cinco continentes, transformou a reconciliação dos irmãos em um dos grandes acontecimentos musicais dos últimos anos. Agora, Oasis: Don’t Look Back in Anger, dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern, leva essa história aos cinemas e mostra os bastidores do reencontro, dos primeiros ensaios à reação de multidões que ainda tratam as músicas da banda como parte de suas próprias vidas.
O reencontro que virou acontecimento
A dimensão do retorno não pode ser explicada apenas pela reunião de uma banda popular. A própria relação entre os Gallagher fazia parte da expectativa. Segundo os diretores Will Lovelace e Dylan Southern, o primeiro reencontro prolongado dos irmãos aconteceu nos ensaios para a turnê, depois de 16 anos. Liam chegou, trabalhou e foi embora. Não houve abraço nem conversa definitiva sobre o passado. A aproximação começou durante o trabalho e se consolidou nos palcos.
O que aconteceu depois foi registrado como uma reação coletiva de grande intensidade. O documentário mostra fãs chorando, dançando, abraçando familiares, rezando e cantando as músicas em diferentes países. A revista Rolling Stone avaliou que a turnê deixou particularmente evidente o impacto que o Oasis ainda exerce sobre diferentes gerações, enquanto o jornal inglês The Guardian destacou a presença de fãs de várias idades e nacionalidades.
A presença de admiradores jovens é especialmente relevante. Parte deles não viveu o auge do Oasis nos anos 1990, mas participa da mesma experiência coletiva dos fãs que acompanharam a banda originalmente. A revista Variety propõe uma possível explicação: o retorno aconteceu em meio a uma onda de nostalgia pelos anos 1990 no Reino Unido, depois de anos marcados por crises políticas e sociais. A crítica observa, porém, que o próprio filme desenvolve pouco essa hipótese.
A reconciliação dos irmãos também ganhou um peso simbólico porque esteve no centro da história do Oasis desde o início. O conflito que ajudou a construir a imagem da banda foi responsável por sua dissolução. Em 2025, a expectativa era justamente descobrir se os dois conseguiriam trabalhar juntos novamente.
Os sinais registrados no documentário apontam para uma mudança. Noel aparece mais vulnerável, admitindo nervosismo antes dos shows e se emocionando com fãs, pais e filhos. Liam mantém sua personalidade irreverente, mas surge em boa forma vocal e mais disciplinado. Depois da turnê, Noel afirma que os dois passaram a manter contato com muito mais frequência e que as coisas que antes os incomodavam perderam importância.
O filme acompanha a reconciliação
Oasis: Don’t Look Back in Anger concentra-se nesse retorno, em vez de tentar recontar toda a trajetória da banda. Os diretores conseguiram acesso aos ensaios e esconderam câmeras entre os equipamentos para não interferir naquele primeiro período de convivência.
O filme recebeu avaliações bastante positivas, mas as críticas divergem sobre o tratamento dado à reconciliação. O New York Times classificou-o como uma produção energética e emocional, enquanto a Rolling Stone destacou sua capacidade de mostrar por que o Oasis continua importante para tanta gente. A Variety foi mais crítica: para Elena Lazic, Liam e Noel aparecem excessivamente comportados e oferecem poucas pistas sobre o que realmente sentiram durante o processo.
Essa diferença ajuda a definir o alcance do documentário. A produção é mais convincente quando registra os irmãos trabalhando, tocando e gradualmente se aproximando do que quando tenta explicar a reconciliação. Um exemplo é a participação de um padre de Manchester, que relaciona os shows à ideia de peregrinação e usa uma passagem bíblica sobre o perdão entre irmãos. Para a Variety, esse tratamento sentimental entra em choque com a personalidade historicamente associada ao Oasis.
Por outro lado, as histórias dos fãs ajudam a explicar por que o retorno ultrapassou a relação entre Liam e Noel. O filme acompanha pessoas que atribuem às músicas significados pessoais, incluindo uma sobrevivente do ataque à Manchester Arena de 2017 que relata ter encontrado consolo em “Don’t Look Back in Anger”.
A estreia em Veneza acrescentou outra imagem à narrativa. Liam e Noel receberam uma ovação de oito minutos, deram as mãos e levantaram os braços juntos. Noel aparentou se emocionar; Liam, em contraste, chegou a demonstrar impaciência com a duração dos aplausos. Foi a primeira aparição pública dos dois fora dos palcos desde a reunião.
O retorno do Oasis, portanto, combinou dois acontecimentos que durante anos pareciam improváveis: a volta da banda e a reconstrução da relação entre seus dois integrantes centrais. A turnê mostrou que as músicas continuavam capazes de mobilizar públicos de diferentes gerações, enquanto o documentário transformou a reconciliação dos Gallagher no eixo de uma história que, desta vez, terminou não com uma nova ruptura, mas com os dois irmãos novamente no mesmo palco.
Autor: Gazeta do Povo








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