
Há uma espécie de familiaridade no sucesso de Minha Melhor Amiga. Ingrid Guimarães e Mônica Martelli não chegam às salas de cinema como duas atrizes que precisam convencer o público de quem são. Ao contrário: levam para a tela uma amizade que já existe fora dela, uma longa experiência em comédias e personagens construídos a partir de questões bastante reconhecíveis para uma parcela do público feminino. O resultado parece ter encontrado rapidamente seu espectador.
Lançado em 3 de setembro, o filme dirigido por Susana Garcia teve a melhor estreia de um longa brasileiro em 2026. Entre quinta e domingo, foram 461,8 mil espectadores e R$ 11,4 milhões de arrecadação, segundo dados da Rentrak divulgados pelo Valor Econômico. O desempenho foi suficiente para tirar Homem-Aranha: Um Novo Dia da liderança do fim de semana, depois de cinco semanas no topo.
O feriado de 7 de setembro ampliou ainda mais o fenômeno. Segundo O Globo, Minha Melhor Amiga ultrapassou 700 mil espectadores e acumulou R$ 17,3 milhões em menos de uma semana em cartaz. Com isso, tornou-se o filme brasileiro mais visto de 2026 até o momento. O número é especialmente significativo porque a produção já demonstra uma capacidade de mobilizar público que poucos lançamentos brasileiros conseguem alcançar.
Desgastes e frustrações
Clara, interpretada por Ingrid, e Júlia, vivida por Mônica, são amigas há muitos anos e passaram dos 50. As duas atravessam momentos de insatisfação: Clara enfrenta o desgaste de um casamento de duas décadas, enquanto Júlia lida com frustrações profissionais e evita relacionamentos mais sérios. Quando as filhas adolescentes viajam para a Europa para estudar, elas aproveitam a oportunidade para também embarcar numa aventura por Portugal e Espanha.
A viagem funciona menos como turismo do que como dispositivo para colocar as personagens diante de uma série de questões associadas à maturidade feminina. Reposição hormonal, envelhecimento, sexualidade, relacionamentos, ambição profissional, medo da solidão e conflitos entre mães e filhas aparecem misturados a paqueras, festas, problemas conjugais e situações de humor físico. O filme não pretende reinventar esses temas. Sua aposta está justamente em tratá-los com a familiaridade de uma conversa entre amigas.
É aí que a dupla encontra seu principal trunfo. Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo, Lúcia Monteiro considera a experiência “bastante agradável” e destaca o entrosamento entre as atrizes. A amizade real entre Ingrid e Mônica, somada às experiências de viagens que elas próprias já tiveram com as filhas, alimenta uma comédia em que realidade e ficção se aproximam. A crítica também observa que as duas dominam tanto o humor verbal quanto o físico e conseguem sustentar o ritmo mesmo quando o roteiro recorre a situações previsíveis.
Aline Pereira, do AdoroCinema, chega a uma conclusão ainda mais favorável. Para ela, o principal fio condutor da história é a superação do medo: o medo de envelhecer, de ficar sozinho, de mudar de vida e de apostar em caminhos desconhecidos. Nessa leitura, a amizade feminina deixa de ser apenas o pano de fundo da comédia e passa a funcionar como alternativa à ideia de que a realização afetiva depende necessariamente de um relacionamento amoroso.
É uma diferença importante em relação à crítica da Folha. Enquanto Pereira enxerga no filme uma mensagem de independência e recomeço, Monteiro identifica uma contradição: embora o roteiro fale em empoderamento e autonomia depois dos 50, a busca por um parceiro continua aparecendo como um dos grandes objetivos das protagonistas.
A comédia brasileira
Existe uma relação histórica entre o cinema brasileiro e a comédia. Na lista de maiores bilheterias o gênero aparece repetidamente entre os grandes sucessos nacionais. Minha Mãe é uma Peça 3, Minha Mãe é uma Peça 2, Se Eu Fosse Você 2 e Trapalhão nas Minas do Rei Salomão estão entre os dez filmes brasileiros de maior público.
Considerando o público registrado na base histórica da Ancine, os dez filmes brasileiros mais vistos são Nada a Perder, Os Dez Mandamentos – O Filme, Tropa de Elite 2, Minha Mãe é uma Peça 3, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Minha Mãe é uma Peça 2, A Dama do Lotação, Nada a Perder 2, Se Eu Fosse Você 2 e O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão. A lista atravessa cinco décadas e mostra que o fenômeno da comédia não começou agora.
Minha Melhor Amiga ainda tem de percorrer percorrer um longo caminho para entrar no grupo dos gigantes, mas já teve um começo promissor. O filme segue uma fórmula que o cinema brasileiro conhece bem: personagens reconhecíveis, intérpretes populares e situações nas quais o público consegue se enxergar. Ingrid Guimarães e Mônica Martelli acrescentam a isso uma vantagem que não pode ser fabricada apenas pelo roteiro: a sensação de que aquela amizade existe de verdade.
É justamente essa impressão que sustenta o filme também quando o texto perde força. A crítica da Folha aponta piadas prontas e situações previsíveis; Aline Pereira reconhece que o longa parece quase improvisado, mas transforma essa característica em parte de seu charme. A produção parece funcionar melhor como encontro entre duas personalidades conhecidas do que como uma comédia particularmente inovadora.
Autor: Gazeta do Povo








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