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Artrite afeta mulheres mesmo com doença controlada – 15/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

As articulações estão menos inflamadas. Os índices usados para acompanhar a artrite reumatoide mostram que o tratamento está funcionando e que a doença pode estar sob controle. Mas a vida nem sempre acompanha essa melhora.

Na consulta, a paciente conta que continua cansada, sente dor, deixou de sair com os amigos, tem dificuldade para trabalhar ou não consegue fazer algumas coisas que antes faziam parte da rotina. Por isso, não basta saber se a inflamação diminuiu. Também importa perguntar o quanto a vida da pessoa voltou ao normal.

Um estudo brasileiro, publicado na revista científica BMJ Open, ajuda a entender essa diferença. A pesquisa analisou 1.079 pessoas com artrite reumatoide acompanhadas em 11 centros públicos especializados do país.

Entre os fatores avaliados, a dificuldade para realizar atividades do dia a dia foi o que teve a relação mais forte com pior qualidade de vida, tanto física quanto mental.

A saúde emocional das mulheres merece atenção

A artrite reumatoide é uma doença autoimune crônica que atinge as articulações e pode provocar dor, rigidez, inchaço, fadiga e perda de função. No estudo, as mulheres representavam 89,4% dos participantes. Mesmo depois de considerados diversos outros fatores, ser mulher continuou associado ao pior resultado na dimensão mental da qualidade de vida.

Os participantes foram avaliados em um único momento. Portanto, o estudo mostra uma associação, mas não permite dizer que ser mulher seja a causa dessa diferença nem explicar por que ela ocorreu. Possíveis fatores biológicos, clínicos e sociais podem estar envolvidos, mas não foram investigados. Ainda assim, o resultado remete a uma pergunta que não deveria ficar fora da consulta: como está a saúde emocional dessa mulher depois que a artrite entrou na vida dela?

Fazer não significa voltar a fazer como antes

Uma mulher pode continuar trabalhando, cuidando da casa, resolvendo problemas e cumprindo compromissos. Para quem olha de fora, parece ter mantido a independência. Mas talvez esteja fazendo tudo com dor, fadiga ou muito mais esforço do que antes. Para dar conta do necessário, pode ter deixado de lado o que fazia por prazer. Conseguir realizar uma tarefa não quer dizer, necessariamente, estar bem.

A qualidade de vida considera outras questões. Como a pessoa se sente física e emocionalmente e quanto a doença interfere no trabalho, no lazer, nas relações e nas coisas que ela gosta de fazer.

Outro estudo, sobre a rotina de pessoas com artrite reumatoide, mostra como essas mudanças aparecem fora do consultório. Foram avaliados 32 adultos, 28 deles mulheres. Depois do início da doença, houve redução da participação em todos os tipos de atividade analisados, principalmente nas tarefas diárias mais complexas, no lazer que exigia mais esforço e na vida social.

É uma amostra pequena e não permite dizer que o mesmo aconteça com todas as pessoas com artrite reumatoide. Muito menos atribuir esse resultado especificamente às mulheres. Mas mostra que a pessoa pode continuar dando conta das obrigações e, ao mesmo tempo, deixar de fazer várias coisas que faziam parte da vida antes da doença.

Fadiga não é só cansaço

Há um sintoma difícil de explicar para quem nunca o sentiu: a fadiga da artrite reumatoide. Não é simplesmente estar com sono ou chegar cansada depois de um dia puxado. Pode ser uma exaustão persistente, desproporcional ao esforço, capaz de afetar a concentração, o autocuidado, o trabalho, as relações e até a vontade de fazer algo por prazer.

Em um estudo com 80 pacientes da Coorte Brasília de Artrite Reumatoide Inicial, 57 apresentaram um grau de fadiga clinicamente relevante, ou seja, intenso o suficiente para merecer atenção. A dificuldade para realizar atividades do dia a dia foi o fator que apareceu de forma mais consistente associado à fadiga, independentemente da maneira usada para medi-la.

Esse cansaço intenso não é exclusivo das mulheres e pode ter várias causas, como dor, sono, humor, incapacidade física, ou o grau de atividade da doença –que inclui inflamação e outros sinais clínicos.

Mas fadiga e inflamação nem sempre andam juntas. O mesmo acontece com a dor. Se todo sintoma for interpretado como sinal de que a artrite está mais ativa, corre-se o risco de aumentar o tratamento voltado para a inflamação sem investigar outras possíveis causas daquele cansaço ou daquela dor.

A inflamação melhora. A dor pode ficar

Controlar a inflamação é essencial no tratamento da artrite reumatoide. Quanto mais cedo e de forma adequada, menor o risco de danos às articulações e de perda de função no futuro. Mas isso nem sempre traz o fim da dor.

Ela pode persistir até em pessoas que atingem remissão segundo os principais critérios clinicos. Fibromialgia e alterações na forma como o sistema nervoso processa a dor estão entre as possíveis explicações.

Também seria um erro atribuir uma dor persistente a questões emocionais. Dor crônica e saúde mental podem interferir uma na outra, mas uma não explica nem anula a outra.

A artrite também pode impactar a vida sexual

Existe uma parte da vida que raramente aparece de forma espontânea numa consulta de reumatologia: a sexualidade. Dor, rigidez, inchaço, fadiga e dificuldade de movimento podem atrapalhar o sexo. Autoimagem, ansiedade, autoestima, secura vaginal, relacionamento e medicamentos também podem interferir. Mesmo assim, o assunto ainda é pouco conversado tanto pelas pacientes quanto pelos profissionais de saúde.

Um estudo da Coorte Brasília dá uma dimensão do problema. Entre 54 mulheres com artrite reumatoide inicial que haviam tido atividade sexual nas quatro semanas anteriores, 79,6% apresentaram disfunção sexual segundo um questionário que avalia desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor.

O número não pode ser generalizado para todas as mulheres com artrite reumatoide. A amostra é pequena e específica. Mas mostra que a vida sexual pode estar comprometida mesmo quando os indicadores apontam que a artrite está sob controle. Por isso, vale perguntar sobre a vida sexual.

É possível recuperar autonomia

O diagnóstico de artrite reumatoide não quer dizer que todas essas perdas sejam definitivas. Uma pesquisa acompanhou 40 pessoas (90% mulheres) com artrite reumatoide inicial durante três anos. Ao longo desse período, houve melhora da capacidade funcional e da maior parte dos aspectos da qualidade de vida avaliados.

Mesmo com poucos participantes, os resultados indicam que tratamento e acompanhamento desde as fases iniciais da doença podem levar a uma recuperação importante.

O movimento faz parte desse cuidado. Hoje, a orientação das diretrizes internacionais não é simplesmente poupar as articulações. Em 2018, a Eular (Liga Europeia contra o Reumatismo) reconheceu a atividade física como parte do tratamento padrão. Contanto que seja feito de forma segura, progressiva e adaptada às condições de cada pessoa. A atualização com dados de 2025, publicada este ano, reforçou essa recomendação.

O tratamento não termina nos exames

Controlar a inflamação continua sendo uma meta central do tratamento, mas as perguntas sobre a qualidade de vida precisam entrar na consulta. As respostas podem indicar a necessidade de fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, tratamento específico para a dor, orientação para atividade física ou acompanhamento de outros profissionais.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Autor: Folha

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