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Psicodélicos: Terapia custará caro no Brasil e nos EUA – 15/10/2026 – Virada Psicodélica

Anda difícil não adoecer mentalmente neste país deprimido e deprimente, ainda mais depois de 4 de outubro passado. Não bastassem os tempos bicudos por que passam as Américas e o planeta todo, sem antídoto político para o veneno da barbárie coletiva, o povo assiste bestificado à inviabilização mercadista do acesso a lenitivos individuais prometidos pelas terapias psicodélicas.

Vai custar muito caro. E vai empurrar quem sofre para os riscos da automedicação e do submundo neoxamânico.

O modelo biomédico calçado em regulamentação e monopólio de patentes vai prevalecendo no país que se arvora em centro do mundo, os EUA. O tratamento psicodélico para depressão mais próximo de licenciamento por lá atende por COMP360, da empresa Compass Pathways, que deve submeter ainda neste ano um pedido de registro e espera comercializar o remédio no primeiro semestre de 2027.

COMP360 é a formulação protegida por patente da boa e velha psilocibina dos cogumelos Psilocybe, “mágicos”, revelados à medicina ocidental sete décadas atrás pelo povo Mazateco do México. Com o sortilégio da propriedade intelectual sobre o princípio ativo de um fungo que cresce em qualquer pasto e é usado há séculos, a empresa planeja multiplicar milagrosamente o lucro cobrando milhares de dólares por aplicação.

Leio no boletim Psychedelic Alpha que a Compass projeta comercializar o composto com custo anual similar ao do antidepressivo inalável Spravato, da Janssen. Nos EUA, algo da ordem de US$ 17 mil a US$ 22 mil (R$ 85 mil a R$ 110 mil). Quem pode pagar isso, mesmo por lá, onde 27 milhões de pessoas vivem sem seguro-saúde (8,2% da população)?

Isso se e quando a agência de fármacos FDA aprovar a licença para COMP360. Depois ainda será preciso regulamentar como e quanto as empresas de seguro aceitarão pagar pelo tratamento, que tende a encarecer ainda mais se for acompanhado de psicoterapia, como recomendam especialistas, mas a Compass prefere ver excluída da bula.

No Brasil, se o medicamento for aprovado um dia e seguir a precificação no patamar do Spravato por aqui, a terapia resultará ainda mais inacessível. Uma dose do spray nasal, que nada mais é do que uma formulação patenteada de um velho e barato anestésico, pode custar algo entre R$ 6.000 e R$ 10 mil –só o remédio, sem contar a remuneração da clínica e do médico responsável.

Deprimidos graves, por exemplo com ideações suicidas, podem necessitar de duas doses por semana, de início. Depois, se continuar precisando do tratamento, quem sabe uma por semana, ou a cada duas. A conta anual pode ficar entre R$ 180 mil e R$ 280 mil, o equivalente de 9 a 13 anos de trabalho por quem ganha salário mínimo. Pode? Lembrando: sem pôr na conta o custo do atendimento clínico durante a “viagem”, para não falar de psicoterapia.

Há no Brasil pelo menos 12 milhões de pessoas com transtorno depressivo, talvez 16 milhões. Coisa de um terço ou mais delas vive com a forma resistente a tratamento da condição, em que tentativas com ao menos dois antidepressivos não chegam a dar resultado. Por baixo, 4 milhões ou 5 milhões de pessoas comendo o pão que o diabo amassou, por enquanto sem perspectiva de melhora.

Isso num país com séculos de uso tradicional de substâncias psicodélicas, como a N,N-dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca de da jurema-preta. De resto, já testada em estudos preliminares para combater a depressão, com benefício promissor. É inconcebível que Ministério da Saúde, SUS e Anvisa não deem ao tema a prioridade que até Donald Trump mandou dar nos EUA.

Nada a estranhar, num país em que metade dos eleitores prefere votar num filhote da ditadura, da campanha antivacina, do 8 de janeiro, das bacanais de Vorcaro e do rancor instilado nos brasileiros. Não têm esperança, nem psicodélicos? Que fumem charutos e bebam Macallan.

Esta quinta-feira (15) marca o centenário de nascimento de Michel Foucault. Leia domingo no caderno Ilustríssima reportagem sobre o dia em que o filósofo tomou LSD na Califórnia, nove anos antes de morrer sem ver deflagrada a utopia lisérgica –ou seu contrário.


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Autor: Folha

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