quinta-feira, julho 23, 2026
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Christopher Nolan traiu Homero em “Odisseia”?

“A obra literária só pode ser recebida através de símbolos, de conceitos – pois é isso que as palavras são; mas o cinema, como a música, permite uma percepção inteiramente imediata, emocional e sensível da obra.” (Tarkovski)

Um dos maiores (se não o maior) cineastas de todos os tempos, o epigrafado Andrei Tarkovski – sobre o qual já escrevi algumas vezes nesta Gazeta do Povo, a começar por aqui –, sonhou durante grande parte de sua vida em adaptar para o cinema uma obra-prima indiscutível: O Idiota, de seu conterrâneo Fiódor Dostoiévski. O projeto era ambicioso, pois, segundo ele mesmo diz, em Esculpir o Tempo: “nem toda a prosa pode ser transferida para a tela. Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem literária que nelas se manifesta é original e precisa”. Esse era o caso de O Idiota. O projeto, no entanto, foi frustrado pela burocracia soviética, costumeiro algoz de Tarkovski durante toda a sua carreira.

Tarkovski adaptou outras obras literárias. Seu primeiro filme, A Infância de Ivan, é baseado no conto Ivan, de Vladimir Bogomolov; Solaris, no romance de ficção científica homônimo de Stanisław Lem; e Stalker, baseado em Piquenique na Estrada, dos irmãos Arkady e Boris Strugatsky. Todos os filmes são obras de qualidade indiscutível, nos quais Tarkovski aplica suas ideias sobre adaptação. Ele divide as obras literárias em dois tipos: nas do primeiro tipo, citado acima, “os personagens são de uma profundidade insondável, a composição tem uma extraordinária capacidade de encantamento, e o livro é indivisível. Ao longo das suas páginas, delineia-se a personalidade única e extraordinária do autor”. Esses livros “são obras-primas, e filmá-los é algo que só pode ocorrer a alguém que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade”.

A fidelidade de uma adaptação não se mede pela reprodução da letra da obra, mas pela criação de uma nova obra, a ser reproduzida em outro meio, mas que, de alguma maneira, dialogue com a original