Jantar perto da hora de dormir ou fazer lanches durante a noite pode ter efeitos além do desconforto digestivo. Pesquisas indicam que o horário das refeições influencia processos metabólicos e pode estar relacionado a:
- alterações na glicemia;
- ganho de peso;
- doenças hepáticas.
Um estudo da Oregon Health & Science University (OHSU), nos Estados Unidos, analisou dados de quase 200 mil pessoas e encontrou associação entre comer após o jantar ou perto do horário de dormir e um risco 20% a 30% maior de doenças hepáticas, incluindo a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) e cirrose.
O resultado, porém, não significa que uma refeição tardia ocasional provoque doença no fígado. A pesquisa é observacional e não comprova relação de causa e efeito.
O que acontece ao jantar tarde?
Estudos controlados mostram que o organismo pode lidar pior com a glicose à noite. Uma refeição feita mais tarde pode elevar a glicemia e reduzir a utilização de gordura como fonte de energia.
Isso ajuda a explicar por que comer tarde da noite faz mal em determinados contextos, especialmente quando o hábito é frequente e vem acompanhado de refeições volumosas, com excessos de calorias, alimentação de baixa qualidade e sono irregular.
“Eu não diria que comer tarde por si só faz mal para o fígado, não têm evidências suficientes para a gente poder afirmar que um jantar tardio ocasional provoque alguma lesão hepática”, explica Pedro Henrique Lambach Caron, médico cirurgião com atuação em cirurgia geral e do aparelho digestivo, do Hospital Angelina Caron.
Segundo o médico, o problema está no conjunto de hábitos. “O que merece atenção é o hábito de concentrar grandes refeições no fim da noite, principalmente quando isso vem acompanhado de um excesso de calorias, uma alimentação de baixa qualidade, muito gordurosa e um sono irregular.”.
Mito ou verdade: comer tarde aumenta a gordura no fígado?
A MASLD é caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado associado a alterações metabólicas. Entre os principais fatores relacionados estão excesso de peso, resistência à insulina, diabetes e outras condições cardiometabólicas.
O estudo da OHSU encontrou associação entre alimentação tardia e maior risco de MASLD e cirrose, mas não permite afirmar que o horário da refeição seja responsável sozinho pelo surgimento dessas doenças.
“A gordura do fígado está fortemente relacionada com o excesso de gordura corporal, resistência insulínica, que é quando o organismo responde menos à ação desse hormônio. Por isso, jantar muito tarde pode fazer parte de um padrão desfavorável, mas não deve ser tratado como uma causa isolada”, explica Caron.
O horário das refeições também pode influenciar o peso. “Pequenos estudos indicam que comer tarde pode aumentar a fome e reduzir nosso gasto energético em determinadas condições. São mecanismos que podem favorecer o ganho de peso, mas não tornam o aumento de peso inevitável”, afirma.
Além disso, comer muito próximo do horário de dormir pode favorecer refluxo, desconforto e alterações no sono.
Quanto tempo antes de dormir é recomendado jantar?
Não existe um horário universal para a última refeição. A recomendação depende da rotina, do horário de sono, da quantidade consumida e das condições de saúde de cada pessoa.
Como orientação prática, Caron recomenda terminar o jantar cerca de duas a três horas antes de dormir e evitar refeições muito volumosas perto de deitar.
“É importante esclarecer, porém, que ele não é um limite comprovado para prevenir gordura no fígado. Não existe uma regra universal de que comer depois das 20 horas, por exemplo, seria prejudicial à saúde. Essa orientação precisa ser individualizada”, afirma.
Há exceções. Pessoas com cirrose, por exemplo, podem precisar de uma ceia noturna para evitar jejum prolongado e preservar massa muscular.
Por isso, mais importante do que simplesmente eliminar a alimentação noturna é cuidar da saúde metabólica. “Eu daria prioridade à qualidade da alimentação, atividade física e o cuidado com o excesso de peso, quando ele existe”, diz Caron.
Na prática, isso significa: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, reduzir bebidas açucaradas e ultraprocessados, praticar exercícios e controlar diabetes, colesterol e pressão alta. Para quem já tem doença hepática, o médico também recomenda evitar álcool e ter cautela com produtos “detox”, chás e suplementos.
Autor: Gazeta do Povo








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