Como a transparência entre gerações virou prioridade de um secular banco suíço que tem US$ 455 bilhões sob gestão e quer expandir operações no Brasil
Por Jean Mendes
Discutir o destino da riqueza familiar já foi um dos maiores tabus do mundo dos negócios. Hoje, virou sinônimo de sobrevivência e transparência. Quem dita esse novo ritmo é Xavier Bonna, sócio-diretor do Lombard Odier, o banco privado mais antigo de Genebra e um dos pilares financeiros da Suíça desde 1796. À frente de uma instituição que gerencia US$ 455 bilhões globalmente, Bonna traz na bagagem a experiência de quem acabou de assumir a liderança como representante da sexta geração de sua própria família no comando do grupo.
“A sucessão sempre fez parte da realidade das famílias e das empresas, mas hoje é um tema muito mais discutido. A nova geração espera maior transparência no processo sucessório, levando as famílias a abordar o assunto mais abertamente com as partes envolvidas.
De passagem pelo Brasil, o país eleito como um dos alvos estratégicos para a expansão do banco, o executivo conversou com a Broadcast Weekend sobre como as novas gerações transformaram a gestão de patrimônio. Para ele, o segredo da longevidade não está apenas nos números, mas na capacidade de abrir canais de comunicação transparentes e desatar os nós emocionais que costumam rondar os processos de sucessão. “As famílias estão cada vez mais dispostas a discutir o assunto abertamente com as diferentes partes envolvidas no processo e nos negócios”, afirma.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Broadcast: Como é a operação do Lombard Odier?
Xavier Bonna: O Lombard Odier é um banco privado suíço, fundado em 1796. Neste ano, celebramos nosso 230º aniversário. O Lombard Odier opera como uma instituição de investimentos totalmente independente. Não temos ações negociadas em bolsa, nem acionistas externos ou dívidas externas. O Grupo tem seis sócios-diretores, que também são seus únicos acionistas. Atualmente, administramos US$ 455 em ativos de clientes em uma rede de 25 escritórios em todo o mundo. Na América Latina, temos um escritório em São Paulo. Como instituição de investimentos, nosso foco é oferecer aos clientes conhecimento especializado e mandatos de investimento.
Broadcast: Qual é a função que mais ocupa o seu tempo?
Bonna: Meu papel hoje é estar na diretamente na linha de frente. Junto com clientes e potenciais clientes, explicamos o que o Lombard Odier faz e como o banco pode contribuir para alcançar seus objetivos. Temos como objetivo ampliar nossa participação de mercado, particularmente no Brasil.
Broadcast:O Lombard Odier tem uma história familiar longa e o senhor é da sexta geração. Como essa trajetória pessoal molda sua visão sobre sucessão e preservação de patrimônio?
Bonna: No Lombard Odier, nosso objetivo é sermos a principal referência em gestão de patrimônio e investimentos para empreendedores e suas famílias, de geração em geração. Além de ajudar nossos clientes e suas famílias a conduzir o processo sucessório com sucesso. Eu mesmo passei por esse processo recentemente, ao me tornar sócio-diretor, representando a sexta geração da família no cargo. Minha experiência direta ao assumir uma posição de liderança que faz parte da história da família há gerações me ajudou a compreender melhor a realidade de muitos de nossos clientes. Pude entender em primeira mão o que eles vivenciam e os desafios que enfrentam ou enfrentarão durante esse período de transição. Essa experiência tem sido valiosa tanto no meu trabalho diário quanto na maneira como apoio nossos clientes.
Broadcast: O que mais mudou na forma como grandes famílias encaram a transferência de patrimônio entre gerações?
Bonna: A sucessão sempre fez parte da realidade das famílias e das empresas, mas hoje é um tema muito mais discutido. A nova geração espera maior transparência no processo sucessório, levando as famílias a abordar o assunto mais abertamente com as partes envolvidas. Também existem diferenças culturais entre países e regiões, especialmente na disposição das famílias para discutir a transferência de patrimônio com pessoas de fora do núcleo familiar.
Broadcast: O que leva uma família a procurar o banco para discutir os processos de sucessão?
Bonna: Geralmente, é uma combinação de fatores. A idade é um deles: em geral, as famílias não começam a planejar a sucessão aos 50 anos, mas aos 65 anos ou mais. Outro gatilho pode ser um evento específico, como uma fusão ou outra mudança nos negócios, situações que ocorrem com frequência entre nossos clientes. A falta de alinhamento de interesses entre os familiares também pode motivar essas discussões e, em alguns casos, gerar conflitos internos. Normalmente, é um acontecimento específico ou a combinação de circunstâncias que leva a família a discutir a sucessão empresarial.
Broadcast: Qual é o maior erro das famílias ao adiar a conversa sobre sucessão patrimonial?
Bonna: Os principais riscos estão relacionados à falta de tempo para o planejamento e o processo de transição, bem como à preparação insuficiente da próxima geração. Quando as famílias deixam para iniciar o planejamento apenas em uma fase avançada isso ocorre com pouca transparência e a próxima geração inevitavelmente terá menos conhecimento sobre os negócios, o que pode reduzir as chances de uma sucessão bem-sucedida.
Broadcast:Qual é o ponto mais difícil na sucessão?
Bonna: Sem dúvida, os aspectos relacionados aos sentimentos pessoais são a parte mais difícil do planejamento sucessório e patrimonial. Cada família é diferente, assim como cada processo sucessório.
Broadcast: As famílias estão começando esse planejamento mais cedo?
Bonna: Acredito que a sucessão deixou de ser um assunto tão tabu e, por isso, as famílias estão mais dispostas a discuti-la. Cada família é diferente e não posso afirmar que elas estejam necessariamente começando o planejamento mais cedo. No entanto, com base na minha experiência, as famílias estão mais abertas a conversar sobre sucessão hoje do que estavam, por exemplo, há dez anos. Houve uma evolução e ela é positiva.
Broadcast: Quais são os modelos mais comuns de participação dos herdeiros nas decisões?
Bonna: Antes de tudo, é uma questão de compreender os valores da família. Essa é a base de uma transferência de patrimônio bem-sucedida. A abordagem depende da família e dos próprios herdeiros. Para algumas famílias, uma abordagem mais formal pode ser adequada, envolvendo o compartilhamento de conhecimentos especializados e discussões abertas sobre as atividades da família, seus sucessos e erros, bem como os aspectos que exigem atenção e cautela especiais. Para outras, uma abordagem mais informal pode funcionar melhor. Nesse caso, pode haver menos discussão sobre o negócio em si e maior ênfase na forma como ele é administrado e em como os membros da família trabalham juntos. Não existe um único modelo que funcione para todas as famílias, e há muitas maneiras diferentes de conduzir esse processo.
Broadcast: Onde normalmente nascem os conflitos?
Bonna: Com base em nossa experiência, os desafios variam conforme fatores como a geração que receberá a empresa. Em geral, quanto menor a família, mais fácil tende a ser conduzir uma sucessão bem-sucedida, embora isso não seja uma regra universal. Um dos pontos mais difíceis de resolver é quando alguns familiares priorizam os interesses pessoais em detrimento dos objetivos coletivos da família e do próprio processo sucessório. Essas divergências podem gerar conflitos e se tornar um dos principais desafios a superar.
Broadcast: Em períodos de maior volatilidade, qual é o principal desafio para manter a família alinhada e o que se faz para evitar decisões precipitadas?
Bonna: Lidar com a volatilidade exige definir um perfil de risco que considere tanto condições favoráveis quanto períodos de estresse nos mercados. Para manter a família alinhada e evitar decisões precipitadas, é importante contar com um profissional independente, de fora da família e da empresa, que ajude a recuperar a perspectiva e ofereça orientação em momentos difíceis. O objetivo é permanecer investido ao longo do tempo, sem tentar acertar o momento de entrar ou sair do mercado.








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