A Anthropic se recusou a submeter seu modelo mais recente de IA ao Instituto de Segurança de IA do Reino Unido para testes antes do lançamento, o que gerou temores dentro do governo britânico de que as empresas de tecnologia estejam se alinhando ao protecionismo em inteligência artificial do governo Donald Trump.
A empresa lançou na semana passada seu modelo mais recente, o Claude Mythos 5.1, apresentado como o mais avançado da companhia nas áreas de ciências da vida e segurança cibernética.
Mas, pela primeira vez, o modelo foi disponibilizado apenas a organizações norte-americanas previamente aprovadas, deixando de fora o AISI (Instituto de Segurança de IA do Reino Unido), líder mundial em testes de modelos de IA de ponta.
A decisão de não oferecer acesso antecipado ao Aisi, que despontou como a organização mais influente do Reino Unido na corrida global pela IA, serviu de alerta para o governo britânico e para a Aisi, segundo pessoas ligadas ao governo, que teme ficar fora dos próximos lançamentos.
Nos últimos meses, o governo dos EUA adotou uma postura cada vez mais restritiva em relação ao setor de IA, recorrendo a amplos controles de exportação para limitar temporariamente o acesso aos modelos mais avançados da Anthropic por parte de todos os cidadãos estrangeiros, incluindo funcionários de empresas americanas de IA.
As pessoas ouvidas pela reportagem acreditavam que a Anthropic teria negado ao AISI o acesso à atualização do Mythos a pedido do governo Trump, suspeita que ainda não foi confirmada. O AISI, fundado há três anos, teve acesso antecipado ao mais recente modelo da OpenAI, o Astra, antes de seu lançamento neste mês.
A Anthropic se recusou a comentar. Na semana passada, a empresa afirmou que estava “se coordenando com o governo dos Estados Unidos para ampliar o acesso a um conjunto mais abrangente de parceiros nacionais e internacionais o mais rapidamente possível”.
“O Instituto de Segurança de IA continua colaborando estreitamente com parceiros do setor, incluindo a Anthropic, para tornar os modelos mais seguros”, afirmou o órgão ligado ao governo britânico que coordena o setor.
A medida ocorre depois de o governo Trump ter imposto, em junho, controles de exportação aos modelos da Anthropic voltados à segurança cibernética, Fable e Mythos, proibindo cidadãos estrangeiros de usar a tecnologia.
Os controles foram implementados quando o governo identificou um “jailbreak”, isto é, uma forma de contornar as barreiras de segurança incorporadas ao software. A descoberta levou a Anthropic a retirar seus modelos de última geração do mercado global por várias semanas.
O episódio acirrou as tensões entre a Casa Branca e o Vale do Silício, que tem criticado a abordagem do governo para regulamentar a IA de ponta.
Também provocou uma reação negativa de governos estrangeiros, que acusaram os EUA de punir seus aliados ao impor a proibição. A Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, alertou na ocasião que as preocupações com segurança constituíam um “desafio compartilhado” e que as medidas adotadas “não deveriam discriminar parceiros”.
Autoridades do governo britânico estão atentas tanto ao impacto sobre a segurança quanto ao possível prejuízo econômico para o Reino Unido caso o país fique para trás no acesso aos modelos de IA mais avançados.
Desde o início do ano, a Anthropic mantém uma relação tensa com o governo norte-americano, que classificou a empresa como um risco à cadeia de suprimentos após um impasse sobre os termos de um contrato com o Departamento de Defesa americano.
As relações entre o principal laboratório de IA dos EUA e setores do governo Trump parecem ter melhorado nos últimos meses, com os dois lados cooperando estreitamente no lançamento dos modelos Mythos e Fable.
Autor: Folha








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