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Idosos enfrentam viagens para acesso à saúde no interior – 24/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

O aposentado Eronildes dos Santos, 64, vive desde a adolescência no subdistrito de Joaquim Egídio, área rural a cerca de 20 km do centro de Campinas (SP). A rotina é marcada pela tranquilidade: compra alimentos orgânicos do vizinho e pedala cerca de 20 km por dia.

Apesar disso, o acesso à saúde é um obstáculo. Mesmo não enfrentando grandes deslocamentos para os atendimentos médicos, ele aguarda há cerca de seis anos por uma cirurgia no ombro pelo SUS (Sistema Único de Saúde), após o rompimento de um ligamento. “Não consigo levantar o braço, me sinto invalidado”, relata.

Especialistas ouvidos pela Folha apontam que envelhecer fora dos grandes centros, como Eronildes, pode significar mais autonomia nas atividades diárias e qualidade de vida, mas também maior dificuldade de acesso a consultas, exames e procedimentos especializados, resultado da distância, da escassez de serviços e da concentração de profissionais nas capitais.

Dados do estudo Demografia Médica no Brasil 2025 mostram que, em 2024, as capitais concentravam quase quatro vezes mais médicos por habitante do que o interior (6,97 por mil, contra 1,9). A desigualdade é ainda maior entre especialistas.

A aposentada Maria da Silva, 71, moradora de Autazes, interior do Amazonas, enfrenta longas viagens até Manaus para dar continuidade ao tratamento de um câncer do colo do útero. Sem atendimento especializado em sua cidade, depende da capital para consultas, exames e sessões de quimioterapia. O trajeto pode levar mais de 12 horas, de barco ou de carro.

“Tem sido muito cansativo, principalmente por causa dessas viagens”, relata. Além da distância, o custo pesa no orçamento da aposentada, que vive com um salário mínimo (R$ 1.621). Cada deslocamento pode chegar a R$ 400, sem contar alimentação e transporte dentro da cidade.

“Às vezes deixo de comprar uma fruta para guardar o dinheiro para ir ao médico”, diz. Em alguns períodos, precisa permanecer dias ou até semanas em Manaus para dar conta dos atendimentos. Quando não consegue companhia ou transporte, consultas e sessões são adiadas. “Teve vez que perdi porque não tinha quem me levasse”, afirma.

Madalena Machado, 70, vive no distrito de Alto Bonito, em Mundo Novo (cerca de 300 km de Salvador), onde mantém uma rotina tranquila no sítio, entre a horta, as galinhas e o artesanato. Apesar da autonomia para as atividades diárias, precisa viajar a Salvador a cada seis meses para consultas com cardiologista.

Na comunidade onde mora, os serviços se limitam a atendimentos básicos e encaminhamentos. Para avaliações mais complexas, é necessário percorrer cerca de 18 km até a sede do município, por estrada de terra, e, de lá, seguir até a capital.

As idas envolvem logística e custos. Quando não utiliza transporte público da prefeitura, Madalena organiza o deslocamento por conta própria. Em Salvador, paga cerca de R$ 450 pela consulta. A rotina exige sair de madrugada e passar o dia inteiro em função do atendimento.

A médica de família e comunidade Jéssica Leão conhece bem as diferenças entre a capital e o interior. Após atuar em São Paulo, se mudou para Alto Paraíso de Goiás, onde hoje trabalha na atenção primária. Segundo ela, o principal problema não é apenas a distância, mas a falta de médicos de família nas unidades básicas.

Supervisora do programa Mais Médicos, Leão afirma que a necessidade de deslocamento é recorrente. “Muitas vezes, o paciente precisa ir para outra cidade ou até outro estado para conseguir atendimento, porque acaba sendo inviável onde mora”, diz.

Apesar das dificuldades, o ambiente do interior pode favorecer o bem-estar. Menor exposição à violência, ausência de trânsito e melhor qualidade do ar impactam o envelhecimento, inclusive na saúde mental.

Um estudo baseado no ELSI-Brasil, analisado em tese da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), apontou que 34,1% dos idosos em áreas urbanas apresentam sintomas depressivos. Fatores como violência percebida, poluição sonora e baixa coesão social estão associados a maior prevalência desses quadros.

“Viver na cidade tem muito barulho, violência, trânsito. Tudo isso afeta a qualidade de vida, e qualidade de vida também é saúde mental”, afirma Leão.

A paulistana Lurdes Santos, 75, mantém uma rotina ativa na capital paulista. Professora aposentada, ainda trabalha em uma associação de docentes e segue circulando diariamente pela cidade com transporte público, em trajetos que combinam ônibus, trem e metrô. Apesar de considerar que consegue acessar os serviços de saúde com relativa facilidade, ela aguarda há cerca de um ano por uma cirurgia no quadril dentro da rede pública.

No cotidiano, a mobilidade é um dos principais desafios da vida urbana. Ela relata dificuldades para subir e descer dos ônibus e depende, muitas vezes, de ajuda de motoristas ou outros passageiros. Ainda assim, mantém uma agenda cheia. Nos fins de semana, frequenta a igreja, encontra amigas e participa de passeios a teatros e cinemas, mantendo uma rotina social ativa na cidade.

“Os degraus do ônibus são muito altos. Às vezes preciso pedir ajuda, mas quase sempre alguém ajuda ou o motorista encosta mais perto”, conta.

Segundo a socióloga Vania Beatriz Herédia, da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), a maior concentração de serviços nas capitais não garante acesso efetivo à população idosa.

“Há mais oferta, mas também uma demanda muito maior, o que se traduz em filas prolongadas e dificuldade para conseguir consultas e procedimentos especializados”, afirma.

Na avaliação dela, os obstáculos ao atendimento mudam de forma conforme o território: no interior, predominam a distância, a escassez de profissionais e a necessidade de deslocamento; nos grandes centros, o principal entrave passa a ser o tempo de espera. “Não é que o acesso esteja resolvido nas cidades maiores, ele apenas se apresenta de outra maneira.”

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autor: Folha

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