Financial Times
A indústria de capital de risco, avaliada em US$ 3,5 trilhões (R$ 17,5 trilhões), enfrenta um problema de escala: as avaliações das empresas estão disparando, mas o número de negócios está diminuindo. Rodadas de investimento superiores a US$ 100 milhões (R$ 500 milhões) responderam por 75% da captação global no terceiro trimestre de 2026, segundo a CB Insights. O motivo é que as startups de inteligência artificial estão concentrando a maior parte dos recursos disponíveis —e isso está mudando os cálculos de quem investe nelas.
Negócios em menor número, mas de maior porte, representam um desafio para a chamada power law (lei de potência, em tradução livre) do capital de risco. Segundo essa lógica, um fundo médio pode esperar que sua carteira inclua talvez nove investimentos malsucedidos para cada sucesso expressivo. Com empresas de IA exigindo cheques maiores e rodadas de captação sucessivas, os investidores precisam concentrar mais recursos em um único negócio —ou tomar a decisão ousada de buscar retornos em outros setores.

A concentração de recursos em startups de IA desafia a estratégia tradicional dos fundos de capital de risco
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Dado Ruvic – 14.out.26/Reuters
O dinheiro continua chegando para as empresas capazes de atrair grandes volumes de recursos. A Kleiner Perkins, que em outra época investiu em gigantes da internet como Amazon e Google, captou US$ 3,5 bilhões (R$ 17,5 trilhões) neste ano em dois fundos voltados à inteligência artificial. Alguns meses atrás, a Andreessen Horowitz completou a captação de mais de US$ 10 bilhões (R$ 50 trilhões) em fundos semelhantes com seu fundo Machine Age, de US$ 1,1 bilhão (R$ 5,5 trilhões), destinado à expansão da infraestrutura física da IA.
Até mesmo as tradicionais empresas de investimento precisam agora dividir espaço nessas rodadas maiores com novos participantes de peso no mercado de capital de risco. Entre eles estão os braços de investimento de grandes empresas de outros setores. É o caso da fabricante de chips Nvidia, que comprou participações em startups como a plataforma francesa de saúde Doctolib e a desenvolvedora de centros de dados Cloverleaf, oferecendo não apenas dinheiro, mas também acesso a chips.
Para quem não dispõe de bilhões de dólares para investir, a situação ficou mais difícil e os retornos, menores. Uma das respostas é cortar custos. Os chamados investidores solo, que administram o capital por conta própria, formam um grupo crescente e também podem oferecer decisões mais rápidas às startups. Fundos menores podem usar inteligência artificial para reduzir gastos com treinamento e serviços jurídicos, além de identificar oportunidades e obter informações relevantes para os investimentos. Quem não quiser fazer aportes elevados também pode buscar inovações mais especulativas, como os chamados neo-labs de IA, muitas vezes pouco mais do que uma ideia e um grupo de profissionais altamente qualificados.
O setor de capital de risco sempre conviveu com o medo de ficar de fora de grandes oportunidades. A disputa com um grupo cada vez maior de participantes intensifica essa pressão, ajudando fundadores a obter cheques generosos, mas reduzindo a diversificação dos investidores. Como as empresas permanecem privadas por mais tempo, esse cenário parece mais arriscado do que o modelo tradicional.
Autor: Folha








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