Uma dupla de pesquisadores, que já havia sido convidada para liderar o Projeto Prometheus, apoiado por Jeff Bezos, revelou nesta terça-feira (25) o que desenvolveram por conta própria: um modelo de IA capaz de processar e gerar uma quantidade de informações tão vasta que um único computador talvez não consiga lidar com ela.
A Accelerated Understanding afirma ter desenvolvido um tipo diferente de modelo de IA que, em testes, processou 5 trilhões de dados em uma única solicitação. Isso equivale a cerca de 5 milhões de vezes o volume que os principais modelos da Anthropic e do Google costumam processar —como se lesse o livro “Guerra e Paz”, de Tolstói, não uma, mas 5 milhões de vezes de uma só vez.
A diferença é que esse novo sistema não foi criado para compreender a linguagem. Ele foi desenvolvido para a física, afirmaram os cofundadores Anima Anandkumar e Benedikt Jenik, em uma entrevista exclusiva antes do lançamento oficial da empresa nesta terça.
Enquanto sistemas como o ChatGPT foram criados com os dados textuais do mundo, permitindo que prevejam a próxima palavra correta em uma frase ao interagir com os usuários, essa IA alternativa aprendeu a prever fenômenos físicos no espaço e no tempo. Ela dispensou a arquitetura Transformer inventada pelo Google —o “T” do ChatGPT— e, em vez disso, processa dados de física com base em uma tecnologia que Anandkumar ajudou a desenvolver há anos, chamada de operadores neurais.
“A visão da inteligência centrada na linguagem coloca os seres humanos no centro. Colocar a física no centro é uma visão centrada na natureza”, comentou Anandkumar, professora de ciências da computação e matemática do Caltech.
Várias empresas, incluindo startups supervisionadas pelos líderes em IA Yann LeCun e Fei-Fei Li, estão buscando os chamados “modelos de mundo” que compreendem a realidade espacial melhor do que a IA treinada em texto. A aposta da Accelerated Understanding é que uma forma mais versátil de operador neural, capaz de prever fenômenos que nem mesmo o olho consegue ver, é o melhor caminho —e pode impulsionar os negócios.
Um exemplo está no projeto de chips. Enquanto várias empresas utilizam IA que programa computadores e raciocina por meio de texto para aplicações em chips, a Accelerated Understanding acredita que uma compreensão mais intrínseca da física é fundamental para otimizar materiais e temperaturas para o desempenho de um chip, com menos tentativa e erro em laboratório.
A empresa também acredita que a mesma IA pode impulsionar a robótica, prever condições climáticas extremas ou analisar dados geológicos para empresas do setor de energia. Em vez de modelos matemáticos frágeis e personalizados para cada caso, uma única IA pode lidar com qualquer consulta física para o mundo dos negócios, disse Anandkumar.
A empresa, no início, está focada em negócios corporativos, em vez de uma oferta para o consumidor, afirmaram os cofundadores.
OFERTA APOIADA POR BEZOS
Uma ideia semelhante despertou o interesse de alguns no mundo dos negócios, incluindo Bezos, o bilionário fundador da Amazon.
Durante um jantar em um restaurante sofisticado na região metropolitana de Los Angeles no final de 2024, um investidor e empresário do setor de biotecnologia chamado Vik Bajaj —que viria a cofundar a Prometheus com Bezos— discutiu uma colaboração com Anandkumar e Jenik, de acordo com registros da reunião analisados pela Reuters.
Anandkumar já havia trabalhado como cientista na Amazon, onde participou de encontros restritos sobre IA organizados por Bezos, e foi diretora da Nvidia por cinco anos. Jenik, seu marido, é engenheiro de infraestrutura de IA. Os dois já haviam fundado sua empresa.
Mais tarde, Bajaj discutiu com eles uma carta de oferta intitulada “Projeto Prometheus”. Em uma cópia acessada pela Reuters, a proposta indicava que Anandkumar poderia ser a representante pública da empresa, membro do conselho e responsável por sua visão científica. Ela e Jenik —que seria observador no conselho— poderiam receber uma participação de 35% na empresa, além de um salário anual combinado de US$ 1 milhão (R$ 5,16 milhões), que dobraria para US$ 2 milhões (R$ 10,32 milhões) após três meses de trabalho.
A carta de oferta previa mais de US$ 2 bilhões em capital para o que o documento chamava de “rodadas comprometidas” de financiamento até a Série B, provenientes de investidores, incluindo Bezos.
A Prometheus se recusou a comentar.
Anandkumar e Jenik acabaram continuando a desenvolver o projeto por conta própria, enquanto Bezos e Bajaj conseguiram levantar uma Série B de US$12 bilhões para a Prometheus em junho de 2026. A Prometheus tem como objetivo desenvolver uma IA capaz de automatizar a fabricação de sistemas físicos complexos.
ORIGENS NA NVIDIA
Embora Anandkumar tenha se recusado a discutir o financiamento, ela já possui parcerias com provedores de computação que forneceram clusters de hardware para desenvolver e executar a IA da Accelerated Understanding. Ela não quis revelar os nomes dos parceiros.
A Nvidia não respondeu a uma pergunta da Reuters sobre se estava apoiando a iniciativa. O presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, foi quem incentivou Anandkumar a levar adiante a ideia desde o início, disse ela.
Contratada pela fabricante de chips em 2018, Anandkumar liderou uma equipe de cientistas que explorou como as unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia poderiam ser utilizadas para aplicações de ponta em IA.
Um dos primeiros projetos mostrou como a IA poderia acelerar a previsão do tempo com a mesma precisão dos cálculos complexos usados pelos meteorologistas. Os resultados impressionaram Huang, que apresentou o trabalho de Anandkumar sobre operadores neurais na Conferência GTC anual da Nvidia em 2021.
“Ele ficou simplesmente muito animado”, disse Anandkumar. Quando ela mencionou como a IA poderia “roubar o pão” dos teóricos da física, Huang respondeu: “Quero que ela roube o pão de todos eles.”
Autor: Folha








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