Com forte demanda dos investidores, a SpaceX captou US$ 75 bilhões no maior IPO (oferta pública inicial de ações) da história. Com ações precificadas em US$ 135, a fabricante de foguetes foi impulsionada à lista de empresas mais valiosas do mundo e seu dono, Elon Musk, ficará ainda mais rico, no caminho para se tornar o primeiro trilionário do mundo.
Com a venda de 555,56 milhões de ações, a companhia foi avaliada em US$ 1,77 trilhão —um recorde para uma oferta inicial. Com essa avaliação, a também controladora da rede de satélites Starlink e do X (ex-Twitter) vale quase duas vezes o valor de mercado combinado das 344 companhias listadas na Bolsa brasileira, estimado em US$ 935 bilhões.
A captação total do grupo pode chegar a US$ 86 bilhões, com uma avaliação de US$ 1,78 trilhão, se os subscritores optarem por vender ações adicionais após o início das negociações nesta sexta-feira (12). A empresa estreará na Bolsa sob o código SPCX.
Com patrimônio estimado em cerca de US$ 800 bilhões pela Forbes, uma alta no valor das ações nos primeiros dias de negociação poderia fazer Musk, 54, chegar ao marco de US$ 1 trilhão.
A SpaceX ocupará a oitava posição entre as maiores companhias globais e a sétima posição entre as listadas nos Estados Unidos quando suas ações estrearem na Nasdaq, embora tenha registrado prejuízo no ano passado e outras megacorporações superem sua receita em várias ordens de grandeza.
Hoje, a subsidiária Starlink, voltada para conexão à internet em áreas remotas, responde pela maior parte da receita da SpaceX.
A precificação desta quinta encerra um esforço de meses que concretizou o projeto mais ambicioso de Musk até agora, mesmo enquanto ele quebrava tradições financeiras e analistas questionavam se havia justificativas sólidas para uma avaliação desse tamanho.
Com a precificação, as ações da SpaceX vão estrear com valor superior ao de empresas como J.P. Morgan Chase, Berkshire Hathaway e Eli Lilly, além de gigantes da tecnologia como Meta e a própria Tesla de Musk.
O maior IPO antes da SpaceX foi a oferta da petroleira Saudi Aramco em dezembro de 2019, que levantou na época US$ 25,6 bilhões com avaliação de US$ 1,71 trilhão. Em termos ajustados pela inflação, a Aramco levantou US$ 33,2 bilhões com valor de US$ 2,21 trilhões.
“Um IPO desse porte não pode ser tratado como apenas mais um IPO de uma grande empresa. Ele funciona como um termômetro importante para a gente medir o apetite dos investidores por essas grandes empresas globais de tecnologia e inovação”, diz Fabio Checchi, chefe de desenvolvimento de negócios da Zero Markets no Brasil.
A SpaceX reservou 30% das ações para investidores de varejo, uma fatia considerada alto, e definiu o preço da oferta antes do “roadshow”, espécie de turnê que banqueiros e investidores costumam fazer para negociar os termos de IPOs.
Checchi também destaca o peso simbólico da listagem. “Um IPO como o da SpaceX aproxima o investidor comum de setores que, até pouco tempo atrás, eram acessíveis principalmente a fundos, investidores institucionais ou rodadas privadas”.
Apesar da fatia incomum para investidores de varejo, isso não significa que todos conseguirão comprar ações por causa da forte demanda pelos papéis. No Brasil, será possível acessar a empresa de Musk com um valor a partir de R$ 50 a R$ 70, pois a B3 vai começar a negociar BDRs (recibos depositários de ações, na sigla em inglês) no mesmo dia de estreia em Wall Street.
Embora a ação da SpaceX no IPO tenha previsão de preço inicial de US$ 135, a estrutura do BDR terá paridade de 1:15 (cada ação da companhia no exterior corresponderá a 15 BDRs negociados na B3). Também há outras vias disponíveis para brasileiros investirem no negócio, como através de ETFs (fundos que replicam índices de mercado) e corretoras internacionais.
Na avaliação de Checchi, o investidor brasileiro “acompanha essas empresas, usa seus produtos e entende o impacto que elas têm no mundo”, mas historicamente teve poucas formas simples de acessar esse tipo de oportunidade.
Musk também pressionou pela inclusão antecipada em índices, o que criaria uma base mais ampla de compradores das ações da SpaceX, e estruturou a governança da empresa para preservar seu controle. Musk deterá 82% da SpaceX após o IPO.
A Nasdaq aprovou regras de “entrada rápida” que permitirão à SpaceX entrar no índice Nasdaq 100 após 15 dias de negociação.
A listagem da SpaceX ocorre em meio a uma semana volátil para os mercados americanos e uma enxurrada histórica de vendas de ações em Wall Street. A Alphabet, dona do Google, buscou levantar mais de US$ 85 bilhões na semana passada, enquanto as duas principais startups de inteligência artificial dos EUA, Anthropic e OpenAI, preparam suas próprias ofertas iniciais.
O mercado de IPOs dos EUA deve se recuperar fortemente este ano após um período anterior de volatilidade. O Goldman Sachs previu que os recursos captados podem quadruplicar para um recorde de US$ 160 bilhões em 2026, impulsionados por SpaceX, OpenAI e Anthropic.
“Vejo esse movimento mais como parte de uma tendência do que como um evento isolado. Existe uma demanda crescente por exposição a empresas que lideram transformações estruturais, como IA, tecnologia espacial, infraestrutura digital e automação”, acrescenta Checchi.
PRÓXIMOS PASSOS DA SPACEX
Fundada em 2002, a SpaceX define sua missão como “construir os sistemas e tecnologias necessários para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e estender a luz da consciência às estrelas”. A SpaceX afirmou que sua oportunidade de mercado abrange US$ 28,5 trilhões, cifra que chamou de a maior da história humana.
A fabricante de foguetes planeja investir o capital levantado com o IPO em projetos que vão desde infraestrutura de IA até novas constelações de satélites da Starlink.
Uma fatia de US$ 20 bilhões também deve ser destinada ao pagamento de um empréstimo-ponte que o grupo contraiu em março, após Musk fundir seus negócios de IA e redes sociais, ambos endividados, à empresa.
“Estamos embarcando em uma nova fase massiva de crescimento e precisamos de capital para isso”, disse Musk ao CEO do J.P. Morgan Chase, Jamie Dimon, durante um evento de antes do IPO.
Musk acrescentou que “fazer data centers de IA no espaço” seria “outro empreendimento massivo de capital”, mas também a melhor forma de superar as limitações energéticas na Terra. Nesta semana, ele revelou um esboço de seu primeiro satélite de IA com uma envergadura de 70 metros.
Os data centers orbitais de IA são centrais para o objetivo de Musk de capitalizar um mercado avaliado em até US$ 28,5 trilhões e justificar sua elevada avaliação de mercado.
O valor de até US$ 1,78 trilhão torna o grupo deficitário o mais caro entre as dez empresas mais valiosas do mundo, negociando a 92 vezes sua receita de US$ 19 bilhões no último ano. Analistas de seu principal subscritor, Goldman Sachs, previram um aumento de 100 vezes em suas receitas de IA até 2030.
A operação espacial da SpaceX é responsável por mais de quatro quintos da massa lançada em órbita nos últimos três anos, disse a empresa, enquanto a Starlink conecta “milhões de clientes consumidores, empresariais e governamentais em 164 países, territórios e outros mercados”.
A maior fatia do suposto mercado da SpaceX vem da xAI, que é vista como uma concorrente secundária em relação à OpenAI e à Anthropic.
Ainda assim, a empresa de Musk afirma que a combinação de sua infraestrutura de computação de IA, seu modelo e o acesso a dados em tempo real no X “cria uma vantagem estratégica significativa”.
Os obstáculos para a empresa em sua enorme avaliação incluem os esforços de rivais como a Blue Origin, de Jeff Bezos, para acelerar a comercialização do espaço e buscar contratos governamentais na tentativa de desbloquear novos mercados além da Terra.
RAIO-X | SPACEX
- Fundação: 2002
- Sede: Starbase, no estado do Texas (EUA)
- Funcionários: 22 mil
- Subsidiárias: Starlink, X, xAI
- Concorrentes: Blue Origin
- Faturamento em 2025: US$ 18,6 bilhões
Autor: Folha








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