Para quem vê de fora, o objetivo da escalada pode parecer simples: chegar ao topo de uma parede apoiando mãos e pés em agarras coloridas. Cada movimento, no entanto, exige muita força, equilíbrio e concentração para não cair.
A combinação de desafio físico e mental é o grande diferencial da atividade, diz Danilo Caruso, preparador físico da Seleção Brasileira de Escalada. “É um esporte completo que trabalha força, mobilidade, flexibilidade e coordenação do corpo inteiro”, explica. A escalada, sobretudo a indoor (praticada dentro de ginásios), ganha mais adeptos no Brasil impulsionada pelo aumento de academias especializadas.
O esporte começou a se popularizar quando virou modalidade olímpica, em Tóquio 2020, afirma Thiago Campacci, presidente da Confederação de Escalada Esportiva. De lá para cá, a quantidade de ginásios privados de escalada indoor no Brasil triplicou: em 2020, eram 28; hoje, existem 95 pelo país —um aumento de 239%—, segundo dados da instituição. Além disso, o esporte estreia nos Jogos Paralímpicos, em Los Angeles 2028.
A modalidade boulder é uma das mais populares, praticada em paredes mais baixas e sem equipamentos, apenas com colchões de proteção no chão. Outro estilo é o top rope, no qual o atleta fica conectado a uma corda presa a uma ancoragem no topo da parede.
Completar os desafios não depende apenas da força dos braços. “A escalada não trabalha um músculo específico, você precisa do reforço do corpo todo”, resume o educador físico. Além dos membros superiores, o core também é uma região bastante exercitada. Por isso, a atividade pode ser uma aliada em processos de emagrecimento e de ganho de massa muscular, ele afirma.
Para a comunicadora Stephanie Noelle, 36, chegar ao topo é só uma consequência. “Fui entendendo que a escalada é sobre você encontrar maneiras de solucionar um problema, pensando em estratégias para conseguir fazer o próximo movimento”, diz. Em novembro passado, uma amiga a convidou para conhecer um ginásio em São Paulo. Ela se apaixonou de cara. Hoje, vai de duas a três vezes por semana.
Nesse processo, ela também precisa enfrentar seus medos —de cair, de se machucar, de falhar. “Eu caí tantas vezes que comecei a entender que não era algo que eu precisava ter vergonha. Se eu não tento, não caio, mas também não evoluo”, conta.
Para Noelle, a atividade ensina a superar limites “que a gente mesmo coloca” e a lidar com como encaramos fracassos. “Você não vai ser boa de primeira. Quando você lida com isso, começa a ser mais gentil com você mesma. A gente está acostumado a se cobrar o tempo inteiro.” Tudo isso contribui para a sua saúde mental, diz, e ela aplica esses aprendizados na vida.
Segundo Caruso, a sensação de pequenos ganhos após cada treino faz muitos se viciarem. Além disso, há uma liberação de endorfina após o exercício, que gera sensação de bem-estar, explica. “É um esporte que sempre te desafia a evoluir. Quando você consegue resolver um problema, já tem outro do seu lado”, completa Campacci.
A comunicadora já tentou tênis, natação e ciclismo, mas nenhum a cativou tanto. A escalada exige estar presente no momento, e nem sobra espaço para lembrar das notificações no celular. “Isso é muito valioso. Às vezes, a gente faz uma atividade física que só movimenta o nosso corpo, pois a cabeça está em um milhão de lugares”, ela diz.
Os escaladores destacam ainda o senso de comunidade, guiado pela convivência em grupo e pela comunicação. Noelle conta que nunca conheceu “tanta gente legal” como nos últimos cinco meses.
Culturalmente, a escalada ainda é recente no Brasil, diz o presidente da confederação. Ele afirma que os praticantes começavam pela prática outdoor —feita em rochas na natureza—, mas a lógica se inverteu, e a maioria descobre o esporte indoor. O primeiro ginásio do país, 90 Graus, surgiu em 1994, na zona sul de São Paulo.
Naquela época, a atividade era de nicho, relembra Alê Silva, que fundou o ginásio Casa de Pedra na capital paulista em 1998. Silva observa que o perfil do público também se transformou: de atletas outdoor para iniciantes e pessoas que buscam uma alternativa mais divertida do que a academia para mexer o corpo.
O interesse por atividades ao ar livre no pós-pandemia, as redes sociais e a entrada de academias em plataformas como Wellhub são outros fatores que ajudaram a impulsionar a escalada, diz Silva. “A maioria sai maravilhado depois da primeira experiência”, conta. O escalador reinaugurou nesta semana a segunda unidade da Casa de Pedra, num espaço maior em Moema.
Além disso, filmes no streaming ajudam a colocar o esporte no imaginário popular. Entre eles, “Free Solo”, sobre o escalador americano Alex Honnold, que venceu o Oscar de melhor documentário em 2019, e “O Jogo do Predador”, longa com protagonista escaladora que está entre os mais vistos da Netflix desde o lançamento, em abril.
A ideia de que o esporte é perigoso é um mito, afirma o presidente da confederação. “O risco que existe é como em qualquer outro esporte. A prática indoor está em um ambiente controlado, há segurança, tudo é revisado e acidentes são raros”, diz. Alê Silva completa que outro mito que ouviu por anos é de que a escalada não é para todo mundo.
É um esporte que não tem idade, tampouco corpo ideal para começar, ressalta Campacci. Para iniciar qualquer atividade física, Caruso sugere fazer um check-up, principalmente da parte cardíaca. A partir daí, afirma o treinador, as habilidades exigidas são desenvolvidas com a prática, de forma progressiva.
Autor: Folha








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