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A onda da extrema-direita – Broadcast

Pesquisas indicam que, em eventual segundo turno, Marine Le Pen venceria o candidato da esquerda, Jean-Luc Melenchon, com 69% dos votos

Fábio Alves

Diante do que aconteceu na Alemanha no mês passado e também das últimas pesquisas de opinião, investidores e analistas já começaram a fazer projeções dos eventuais impactos econômicos e fiscais para a França caso Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita, vença a eleição presidencial marcada para abril e maio (segundo turno) de 2027.

Nunca a perspectiva de a extrema-direita assumir o poder na França foi tão forte como agora. Não à toa, é grande a ansiedade pela divulgação do plano econômico para a campanha eleitoral de 2027 do Reunião Nacional (RN), partido de Le Pen.

Conforme a mais recente pesquisa de intenção de voto, Le Pen ampliou sua liderança na simulação de primeiro turno de 33% para entre 35% e 36% do apoio dos eleitores. Já na simulação de segundo turno, ela venceria com ampla margem (69% de intenção de voto) em relação a Jean-Luc Melenchon, que representa a extrema-esquerda na França. A pesquisa vem na esteira da eleição parcial para o Senado francês no último domingo de setembro, quando o Reunião Nacional conquistou um recorde de 14 cadeiras. O partido passou a fazer parte do Senado francês em 2014 ao conquistar duas vagas.

A euforia de Le Pen e do seu Reunião Nacional ganhou fôlego depois da avassaladora vitória da extrema-direita alemã na eleição do estado de Saxony-Anhalt, onde o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou quase 44% dos votos e ficou a apenas três cadeiras para conseguir uma maioria absoluta para governar. O RN está prometendo divulgar ainda neste mês o seu plano econômico para eleição presidencial de 2027.

Na opinião do economista-sênior do banco Commerzbank, Vincent Stamer, a incerteza política na França está paralisando cada vez mais a economia, e a eleição presidencial de 2027 ameaça agravar essa situação, caso nenhum partido consiga os votos suficientes para governar com maioria no Parlamento francês.

“Sem uma maioria no Parlamento, até mesmo o novo chefe de Estado enfrentará o risco de um impasse político, o que pode atrasar reformas econômicas urgentemente necessárias”, diz Stamer. “Até mesmo as negociações orçamentárias, até o final deste ano, provavelmente se tornarão refém das campanhas eleitorais.”

O que preocupa os analistas é que, nos próximos anos, diante de um eventual impasse político no Parlamento, o déficit orçamentário do governo francês poderá permanecer em 5% do PIB ou até mais.
“Economicamente, Le Pen defende a limitação da imigração; a consolidação fiscal por meio da redução dos gastos com a União Europeia (UE); um teto para a dívida pública; a redução do imposto sobre valor agregado (IVA) de certos produtos e o retorno da idade de aposentadoria para 60 anos”, explica o economista do Commerzbank. “No passado, Le Pen se distanciou de exigências extremas, como sair da UE e do euro.”

Aliás, Stamer diz que, nos últimos meses, Le Pen tem defendido uma política econômica mais moderada, embora ocasionalmente tenha apresentado propostas radicais, como dar preferência aos cidadãos franceses em empregos e benefícios sociais.

Em relatório a clientes, os analistas Bas van Geffen e Maartje Wijffelaars, do banco Rabobank, lembram que a composição do Parlamento francês determina a influência do presidente, e o próximo presidente herdará uma Câmara Baixa fragmentada. Segundo Geffen e Wijffelaars, é provável que as eleições presidenciais levem a eleições parlamentares antecipadas no final da primavera de 2027 (no Hemisfério Norte), especialmente se a esquerda ou a extrema-direita assumirem o Palácio do Eliseu. Isso estenderia a incerteza política ao longo da primavera.

“O presidente desempenha um papel importante na política externa, na defesa e em momentos de crise, mas o Parlamento supervisiona a política interna e autoriza muitos tratados internacionais”, escrevem os analistas do Rabobank. “As eleições parlamentares não estão agendadas até 2029, mas o presidente pode dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições antecipadas, após as quais poderá nomear um primeiro-ministro.”

Na opinião de Geffen e Wijffelaars, é pouco provável que qualquer próximo presidente consiga obter maioria no parlamento.

“Portanto, é provável que ocorra um maior descompasso fiscal devido a concessões e acordos políticos”, argumentam Geffen e Wijffelaars. “O risco de a França não cumprir as metas orçamentárias é maior se Le Pen puder nomear um primeiro-ministro.”

Para os analistas, os planos fiscais do RN podem não ser tão irresponsáveis quanto se temia, mas o compromisso do partido com a responsabilidade orçamentária continua incerto. E um parlamento fragmentado não impediria Le Pen de adotar uma postura de maior confronto em relação às lideranças da União Europeia, o que poderia travar a tomada de decisões na UE.

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