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Musk fala de IA, Marte, Reino Unido e Trump – 23/07/2026 – Tec

Elon Musk, segundo ele próprio, é uma Cassandra dos tempos modernos —melhor que a maioria em prever o futuro, mas condenado a não ser acreditado. “As pessoas não percebem que o que estou dizendo vai se concretizar”, diz o bilionário à The Economist em uma entrevista de 90 minutos realizada em uma gigantesca fábrica da Tesla no Texas (EUA), onde carros elétricos saem sozinhos da linha de montagem.

Isso talvez se deva ao fato de que suas previsões vão do inquietante ao bizarro. Musk prevê que, dentro de cinco anos, os sistemas de inteligência artificial poderão superar a soma de toda a inteligência humana. Em dez anos, robôs no ambiente de trabalho ajudarão a inaugurar uma era de “abundância tão incrível” que o dinheiro perderá o sentido. E em 20 anos, o Reino Unido —um país que ele não visita há anos— estará mergulhado em uma guerra civil.

Acredite nelas ou não, as previsões de Musk, que no mês passado se tornou brevemente o primeiro trilionário do mundo, merecem ser levadas a sério. A força motriz por trás da Tesla e da SpaceX, fabricante de foguetes transformada em conglomerado de IA, está fazendo mais do que qualquer outro empreendedor para moldar o futuro.

Sua influência —impulsionada por dinheiro e feitos de genialidade em engenharia— se estende da Casa Branca a pontos de tensão global como a Ucrânia. Com 240 milhões de seguidores no X, sua plataforma de mídia social, as opiniões de Musk, especialmente as mais controversas, têm repercussões significativas.

Usando botas pretas e uma jaqueta de couro com o logo do Grok, seu chatbot, nas costas, ele demonstrou lampejos da determinação que o ajudou a ser pioneiro na produção em massa de veículos elétricos e a enviar foguetes reutilizáveis ao espaço contra todas as probabilidades. Ele também mostrou o quanto está empenhado em moldar sua própria realidade, a ponto de ser intransigente em assuntos fora de sua área de especialização.

Foi a primeira entrevista longa de Musk desde a abertura de capital da SpaceX, que disparou para um valor de US$ 2,6 trilhões (R$ 13,19 trilhões) nos dias seguintes ao início das negociações, mas desde então despencou para US$ 1,6 trilhão, um quinto abaixo do preço inicial. O principal tema da conversa foi IA. Segundo ele, é uma tecnologia que pode levá-lo “da euforia ao terror” em um único dia. Por ora, sua “conclusão filosófica” é “ver o lado positivo”.

É uma escolha que convenientemente serve aos seus próprios interesses. Musk acredita que sistemas de IA e robôs eventualmente realizarão a maioria dos trabalhos digitais e físicos, tornando o trabalho humano “opcional”. Para esse fim, a xAI (agora chamada SpaceXAI) está desenvolvendo sistemas para executar tarefas cognitivas como programação de software, enquanto a Tesla fabrica humanoides. Musk planeja alimentar todo esse aparato de IA com data centers no espaço.

Sem empregos, ele sugere que pode ser necessária uma redistribuição de riqueza em larga escala para criar uma “renda alta universal” para os humanos. Mas embora o homem mais rico do mundo diga que não tem problema em pagar “trilhões em impostos”, ele também argumenta que o dinheiro será irrelevante daqui a uma década. Assim, defende que os governos simplesmente “emitam cheques para as pessoas”, porque em meio a uma oferta infinita de bens e serviços produzidos por máquinas, a deflação será um problema maior que a inflação.

Musk reconhece que há riscos iminentes decorrentes de sistemas de IA cada vez mais poderosos. Observando que as capacidades dos modelos de fronteira estão melhorando rapidamente, ele elabora sobre uma proposta recente de Demis Hassabis, cofundador do Google DeepMind, para que o governo dos EUA crie um órgão de autorregulação através do qual a indústria testaria seus próprios modelos em busca de eventuais falhas.

O dono da SpaceX argumenta que o esforço deveria ser estendido à China, e que os principais laboratórios de IA, incluindo os chineses, deveriam ter uma ou duas semanas para inspecionar os modelos mais recentes uns dos outros antes do lançamento, sinalizando quaisquer riscos aos governos em Washington e Pequim. “Os concorrentes podem manter uns aos outros honestos.”

Ele vai ao ponto de sugerir que, para manter os modelos seguros, estaria disposto a fazer as pazes com Sam Altman, chefe da OpenAI, com quem travou uma batalha judicial —e foi derrotado— remontando aos dias em que cofundaram o laboratório de IA juntos. “No fim das contas, se tivermos que conversar, vamos conversar”, afirma, acrescentando que ambos podem precisar “deixar de lado nossas diferenças pessoais pelo bem do mundo”.

Musk parece muito menos preocupado com a ascensão dos laboratórios chineses do que outros chefes de IA, como Dario Amodei, da Anthropic. Ele está impressionado com lançamentos como o Kimi K3, revelado este mês pela Moonshot AI, e acredita que há uma “boa chance” de que empresas chinesas de IA se tornem “as líderes em algum momento”, apontando para o fornecimento de eletricidade do país, que supera vastamente o EUA, e sua capacidade de produzir robôs em massa. Ele acha, inclusive, os vídeos de robôs chineses arrancando as cabeças uns dos outros “bem engraçados”.

Musk se opõe aos esforços de alguns funcionários do governo Trump para proibir empresas norte-americanas de usar modelos chineses, dizendo que isso não seria o suficiente para impedir seus criadores de vencer a corrida da IA. Ele espera que a China eventualmente supere sua escassez de chips de ponta, resultado das restrições de exportação dos EUA, criando suas próprias máquinas de litografia, cuja ausência atualmente a impede de fabricar quantidades suficientes de processadores de alto desempenho.

No momento, a holandesa ASML detém o monopólio da venda da classe mais avançada de ferramentas de litografia e está proibida de vendê-las à rival superpotência dos Estados Unidos. “[Mas a China] está mais perto do que a maioria das pessoas imagina de resolver o problema da litografia”, avalia Musk.

O empreendedor em série não se envergonha da quantidade de poder que exerce. Ele sustenta que a IA controlará quase tudo eventualmente, e que seu domínio da SpaceX, onde detém mais de 80% das ações com direito a voto, visa garantir que alcance seu objetivo de longo prazo de transformar a humanidade em uma espécie multiplanetária com uma colônia em Marte, mesmo que isso reduza os lucros a curto prazo.

Quanto à sua influência sobre a política norte-americana, onde seu dinheiro e influência ajudaram a conduzir Donald Trump de volta ao poder em 2025 (e brevemente colocaram Musk no comando do desmonte da burocracia federal), ele diz que se envolveu demais.



Me empolguei, francamente

Ainda assim, ele não mostra sinais de abrir mão do púlpito geopolítico. Embora os satélites Starlink da SpaceX, que fornecem conectividade de internet em lugares remotos, tenham sido usados para ajudar a Ucrânia a combater a invasão russa, Musk permanece inflexível de que qualquer acordo de paz deveria oferecer concessões territoriais à Rússia.

Ele descreve a caracterização da extrema direita europeia pela mídia como “falsa, enganosa e absurda”, e argumenta que ela é composta por “pessoas normais” que buscam cidades seguras, fronteiras protegidas e gastos sensatos.

Suas previsões sobre uma futura guerra civil no Reino Unido derivam de uma visão de que um influxo de pessoas cujas ideias são “antitéticas às crenças ocidentais” levará a um acerto de contas. Perguntado se é anti-muçulmano, ele responde: “Sou contra estupro e assassinato. Sou contra a imposição de regras e leis que são contrárias ao que passamos a aceitar no Ocidente, e é uma vergonha que a mídia tradicional, como vocês, não reconheça isso”.

Não está claro como sua visão sombria do futuro fora dos Estados Unidos se encaixa com seu utopismo de IA. Mas até Musk se pergunta se tudo isso faz sentido. Às vezes, ele diz, acredita em uma teoria na qual o universo é uma simulação de computador criada por alienígenas. “As coisas que estou fazendo são tão absurdas que é difícil acreditar que são reais”.

Autor: Folha

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