Recursos de segurança infantil nos aplicativos de redes sociais mais populares frequentemente não funcionam como prometido, revelou um novo relatório da Universidade de Nova York e da Universidade Northeastern. Os pesquisadores testaram dezenas de recursos de segurança das plataformas Instagram, Snapchat, TikTok e YouTube nos últimos anos.
O estudo descobriu que, em alguns casos, as ferramentas de segurança pareciam estar completamente ausentes, enquanto em outros estavam com falha, eram facilmente contornadas ou difíceis de encontrar. O Snapchat, por exemplo, permitia que adultos enviassem solicitações de mensagem para crianças que não conheciam e sugeria que adolescentes fizessem amizade com adultos desconhecidos.
O Instagram também incentivava contas de adolescentes a se conectarem com homens desconhecidos. E o TikTok, após prometer remover conteúdo que promovia transtornos alimentares, recomendava buscas sobre “como fingir que está comendo sua comida” para contas de adolescentes, por exemplo.
As descobertas, muitas das quais foram confirmadas pelo New York Times, surgem em meio a uma intensa reação contra a indústria de redes sociais. Uma série de processos alegando danos a usuários jovens pode custar bilhões de dólares às empresas de tecnologia, e vários países anunciaram proibições de redes sociais para menores de 16 anos.
Vários líderes de tecnologia devem testemunhar ao Congresso no próximo mês sobre os efeitos de seus aplicativos nas crianças. As empresas afirmam que tornaram seus produtos mais seguros ao longo dos anos, apontando para controles parentais e limites de tempo para usuários jovens.
A nova pesquisa, no entanto, destaca o abismo entre as garantias das empresas sobre segurança infantil e a experiência de pais e adolescentes online. Os pesquisadores analisaram centenas de declarações das empresas sobre os recursos e descobriram que a linguagem frequentemente sugeria que as plataformas estavam fazendo muito mais para prevenir danos do que realmente faziam, disse Lexie Matsumoto, estudante de pós-graduação em ciência da computação na NYU e uma das autoras do estudo.
“Eles usam linguagem como ‘Dificultamos’ ou ‘Temos medidas para proteger contra isso’, sem nunca realmente descrever essas medidas”, acrescentou.
Em 2023, o Snapchat disse que adolescentes precisavam ter “vários amigos em comum com outro usuário” antes de poderem aparecer nos resultados de busca ou serem sugeridos como amigo para essa pessoa. E em 2025, a empresa anunciou mais “proteções para usuários mais jovens que ajudam a impedir que estranhos consigam encontrar seus perfis e se conectar com eles”.
Mas quando os pesquisadores entraram em contas de adultos no Snapchat, conseguiram encontrar e enviar solicitações de amizade para contas de adolescentes buscando pelo nome de usuário. O aplicativo também frequentemente recomendava pessoas desconhecidas para contas de adolescentes. O NYT replicou essas descobertas quase um mês depois que os autores do estudo as reportaram.
Uma porta-voz do Snap disse que os pesquisadores, que estavam intencionalmente tentando burlar as proteções, não representavam usuários típicos. Também afirmou que o aplicativo alerta usuários adolescentes para serem cautelosos quando alguém fora de sua rede tenta contatá-los.
No Instagram, contas de adolescentes são privadas por padrão, um recurso que os pesquisadores elogiaram. Ainda assim, ao testar uma nova conta para uma adolescente, eles descobriram que uma página de pessoas recomendadas para seguir listava quase inteiramente perfis do que pareciam ser homens adultos. Uma nova conta de adolescente criada pelo NYT também viu perfis sugeridos de adultos desconhecidos, tanto homens quanto mulheres.
Uma porta-voz da Meta rejeitou a ideia de que as ferramentas de segurança do Instagram estavam defeituosas. “A realidade é que com as Contas de Adolescentes, os adolescentes estão vendo menos conteúdo sensível, experimentando menos contato indesejado e passando menos tempo no Instagram à noite”, disse.
Três plataformas —YouTube, Instagram e TikTok— criaram notificações destinadas a limitar o tempo que adolescentes passam online, mas os pesquisadores descobriram que esses alertas eram facilmente ignorados. Quando uma conta de adolescente no YouTube atingiu um limite de 60 minutos para assistir vídeos curtos, por exemplo, a plataforma imediatamente ofereceu um link para alterar o limite, bem como uma opção para “ignorar limite por hoje”.
Um porta-voz do YouTube disse que os pais podem configurar limites de tempo para vídeos curtos que seus filhos não podem burlar.
Todas as plataformas prometeram reduzir a capacidade dos adolescentes de encontrar conteúdo relacionado a automutilação ou transtornos alimentares. Mas no TikTok, Snapchat e Instagram, os usuários conseguiam contornar isso ajustando ligeiramente seus termos de busca —como usar “transtorno alimentra” em vez de “transtorno alimentar”.
No TikTok, uma conta de adolescente que havia buscado conteúdo sobre transtornos alimentares era então incentivada a buscar termos como “sofrendo mentalmente”, “gilete na pele” e “dicas de comida ana”, uma abreviação comum para anorexia, descobriram os pesquisadores.
Quando um repórter do NYT testou a plataforma com uma conta de adolescente no final de junho, depois que os pesquisadores informaram o TikTok sobre o problema, a empresa havia corrigido parcialmente: as recomendações de termos de busca prejudiciais haviam desaparecido. Ainda assim, após algumas buscas sobre dieta, a página de conteúdo sugerido foi inundada com imagens de mulheres jovens exibindo suas clavículas, parabenizando-se por não comer e oferecendo “motivação tóxica para pp”, referindo-se a perda de peso.
Um porta-voz do TikTok disse que o aplicativo tem mais de 50 recursos de segurança para adolescentes ativados por padrão, e a empresa remove regularmente conteúdo que glorifica transtornos alimentares. O TikTok tem restrições adicionais para usuários menores de 13 anos, um recurso que os pesquisadores descobriram funcionar bem.
Anneke Buffone, psicóloga que trabalhou na Meta até janeiro, quando saiu para fundar uma organização sem fins lucrativos de segurança juvenil, disse que as plataformas de redes sociais não investem o suficiente em equipes de confiança e segurança, deixando esses trabalhadores sobrecarregados e incapazes de corrigir completamente os problemas com esses recursos.
Buffone acrescentou que os pais frequentemente sentem vergonha porque as empresas de tecnologia sugerem que eles deveriam ser capazes de proteger seus filhos online, enquanto fornecem ferramentas inadequadas para fazê-lo.
“Não é um pai falhando em se importa. É uma ferramenta que não faz o que deveria”, afirmou.
Autor: Folha








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