
Há muito, muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, eu tinha um blog chamado Fides et ratio, montado em boa parte para responder ao neoateísmo que os livros de Richard Dawkins tinham espalhado pelo universo. Havia gente grande: Deus, um delírio vendia aos milhões, Christopher Hitchens enchia auditórios de universidade. Eu, coitado, era lido por meia dúzia de gatos pingados mais interessados em treta do que em Deus.
Ainda assim, a promessa cabia numa brevíssima linha de manual: siga a evidência aonde ela levar. Ela levava para fora da igreja.
Para a surpresa de muita gente ainda interessada neste tipo ultrapassado de assunto, na semana passada um doutorando de Princeton seguiu a evidência aonde ela levava. Chegou a Fátima e à Igreja Católica.
Joe Schmid mantém o canal Majesty of Reason e é, aos olhos da profissão, coisa bem mais séria do que a palavra “youtuber” deixa supor. Publicou perto de vinte artigos em filosofia da religião, saiu na Mind, na Noûs, no Journal of Philosophy, assina o verbete sobre argumentos ontológicos da Enciclopédia de Filosofia de Stanford. O cara é brabo.
A fé que chega por silogismo nem sempre convence.
Em 2023 lançou pela Springer, com Daniel Linford, Existential Inertia and Classical Theistic Proofs, o ataque mais bem-acabado da geração dele às provas clássicas da existência de Deus – não que minha fé tenha sido abalada por isso. Porém, a tese é técnica e desagradável para o meu lado: as coisas que existem tendem a continuar existindo por conta própria, sem ninguém segurando; se for assim, a prova aristotélica fica sem chão. Vou parar de filosofês, prometo.
Patrick Flynn, filósofo católico que passou anos respondendo àquelas objeções em podcast e por escrito, resumiu o susto da conversão de Joe: a pessoa mais citada como razão para não se tornar católico acaba de se tornar… católica.
O anúncio veio em 22 de agosto, num vídeo de título sem sutileza – “Acabei de me converter ao catolicismo. Esta é a minha história” – que passou de cem mil visualizações em dois dias. Mas a conversão aconteceu em fevereiro, depois de quatro horas de conversa com um apologista chamado Ethan Muse. Ele ficou seis meses calado, o que informa bastante sobre o preço de mudar de posição em público quando a reputação inteira foi construída sobre uma disciplina só: nunca aceitar um argumento sem antes tentar quebrá-lo.
Agora a parte que estraga a festinha dos racionalistas mais radicalizados. Joe Schmid diz com todas as letras que os argumentos teístas o persuadiram até certo ponto e nunca o tiraram do agnosticismo. O que o tirou de lá foram os milagres: milagres eucarísticos com laudo de laboratório, os carismas de Pio de Pietrelcina, as aparições marianas de Lourdes, de Fátima, do Cairo. E a história de Maria Goretti, esfaqueada aos onze anos em 1902, que perdoou o assassino antes de morrer.
“Parece que o universo estava conspirando para fazer com que Deus parecesse existir”, disse no vídeo. E são milagres que confirmam doutrinas distintamente católicas, acrescenta. Ele descreve a decisão final em termos de aposta: “não estava disposto a apostar minha alma não só numa conspiração isolada, mas numa conspiração de conspirações”.
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A reação de parte do time filosófico foi imediata e sincera: que decepção, Joe. O homem que desmontou a prova aristotélica em quase quatrocentas páginas voltou por causa de uma aparição fotografada em 1968 no telhado de uma igreja copta, num subúrbio do Cairo, por uma multidão em que havia mais muçulmano que cristão. Dirão que isso rebaixa a conversão. Será?
A decepção, aqui, precisa ser lida em chave teológica. Por exemplo, Judas esperava outra coisa de Cristo. Esperava trono, trombetas anunciando o exército do Reino de Deus, romano expulso da Judeia. Para frustração dele, recebeu um carpinteiro pregado num pedaço de madeira entre dois ladrões. O cristianismo prometeu escândalo – skándalon, no grego de Paulo, é a pedra em que se tropeça – e cumpriu à risca. A fé que chega por silogismo nem sempre convence.
A filosofia faz nesse contexto o que sempre fez: prepara o terreno e sai. Schmid, até onde se sabe, manteve de pé todas as objeções técnicas: continua achando que as provas clássicas não funcionam; converteu-se assim mesmo. Isso é bem mais interessante que a versão de folheto, em que o convertido só muda de lado depois de perder a discussão. Comigo não foi argumento. Foi um vazio mortal que não acabava.
John Loftus, veterano do ateísmo americano, escreveu sobre Joe: ninguém raciocina com lógica pura, existem entre 150 e 180 vieses cognitivos catalogados, 72,8% dos filósofos profissionais rejeitam o teísmo segundo a pesquisa de 2009. Reconheceu, é justo registrar, que Schmid é um dos jovens filósofos mais brilhantes do mundo. Em seguida explicou o brilhantismo pelo viés. É o que se fazia com o crente em 2008, com a diferença de que agora o crente publica na Noûs ou na Mind.
Convém não exagerar no trunfo. O neoateísmo morreu de tédio e de briga interna por volta de 2014, quando o movimento se despedaçou nas guerras culturais e descobriu que ninguém mais precisava dele (talvez porque tenha se tornado só um negócio lucrativo de autoajuda). Hitchens morreu em 2011, Daniel Dennett em 2024, Sam Harris virou guru de meditação com aplicativo próprio, e Dawkins anda por aí se apresentando como “cristão cultural” – o modo mais elegante de pedir para ficar com a catedral sem precisar se comprometer com o sermão da missa. Schmid chegou ao velório e assinou a certidão de óbito.
Isso é bem mais interessante que a versão de folheto, em que o convertido só muda de lado depois de perder a discussão.
Durante vinte anos vendeu-se a ideia de que o rigor racional pertencia a um lado só e que o resto era tudo gente burra. Schmid mudou de lado sem largar o rigor: os artigos que mostram onde o meu lado é fraco continuam no currículo dele.
Do meu blog de 2008 não sobrou nada, nem o URL. A única coisa que eu ainda preservo é o hábito de conferir, de vez em quando, se ainda acredito no que escrevi ali. Paro. Rezo. Choro em silêncio ao pé de um crucifixo. Schmid fez as contas antes de crer. Eu faço depois, toda manhã, e creio mesmo nas manhãs em que as contas não fecham.
Autor: Gazeta do Povo








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